sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

O VERBO QUE NÃO SE DEIXA CONJUGAR

 

 

Era esperado, mas nem tanto assim, nos colocaram no patamar dos desprezados e inertes e o tempo verbal no infinitivo de ‘governar’ não se aplica por aqui e menos ainda no gerúndio. Nos presentearam gregamente como chefe do executivo do país um cidadão que priva pelas relações pessoais, isso em todos os níveis, seja domiciliar ou não, deixando as mais importantes pautas engavetadas e amarelecidas; em trombadas esporádicas pelos corredores dos ostentados palacetes inúteis e nas reuniões dos salões barulhentos de zum-zum-zuns lá pelos distantes cerrados candangueiros a marra é tão grande que sequer há diálogos, apenas farpas; no breve período já trocou dois terços da manada por conta de dissabores e algozes pessoais, figuras importantíssimas das mais diversas estirpes das esferas que regem os andares sensatos da nação se esvaindo por pura birra desse mentor inconsequente, enquanto isso o país caminha rastejante e zonzo sem entender quase nada; reparem que toda vez que algum comparsa seu vence a peleja ele aparece retumbante com um sorriso aparvalhado de orelha a orelha exalando babas por seu recém-empossado capacho ou vitorioso e sempre ladeado por seus fieis escudeiros igualmente palermas; sedenta por aliados em todas as células, não se sabe exatamente para quais finalidades, mas está quase conseguindo, deixa muito claro e explícito que não tolera uma gama imensa da sociedade brasileira, esculhamba sempre que pode tudo que não lhe agrada, e é certo que quase nada lhe agrada. É o típico caso em que a farda não condiz com o fardado. O desespero é a rogação dos quase invisíveis.

O VAZIO


 

Vemos um copo vazio, que também pode estar cheio de dor ou cheio de ar, repleto do nada e podemos olhar para esse nada e enxergarmos coisas. Há um olhar perdido a mirar o horizonte na imaginação do que não pode existir, o que não dá para alcançar, um sonho, uma luz, uma esperança, talvez um novo mundo, quem sabe um pouco melhor. O tempo é mágico e pode ser tão bonito quanto o arco-íris, mas é também o senhor de todos os destinos, é o que acreditamos ser o tempo da vida que nos faz crer em muitas coisas, os deleites e os sorrisos nos momentos de felicidade que desejamos que perpetue, mas é só um sonho e sonhos são só sonhos, são desejos, vontades, por isso nos é permitido sonhar sem nenhuma culpa ou precisar pedir licença nem autorização a ninguém. As pessoas queridas se vão, nem sequer nos avisam, não nos permitem pedir que fiquem só um pouquinho mais, apenas se vão, algumas pra nunca mais voltar e outras pra nunca mais, nos fazem chorar, estilhaçam nosso coração, mas não é por mal, não é por querer, o poeta em seu lamento cantou que 'a saudade é a metade arrancada de nós e poderá ser o revés do parto quando for arrumar o quarto de alguém que já partiu', naquele adeus eterno e infinitamente doloroso, não existem dor nem vazio piores e assim alguma descrença toma conta dos nosso coração que poderá ficar escuro, quase sem vida, podemos chorar lágrimas inundadas para nos confortarmos ou apenas um alivio momentâneo, aquela sensação de vazio, aquele vazio imensurável que parece não ter um fim, a dor pode ser tanta que se existe uma alma e se essa alma puder sentir dor, então noss’alma ficará muito perto de desaparecer e nossos corações prestes a explodir, não haverá consolo, não há como buscar as forças, ficamos inertes e isso nos causa tanta tristeza que ao olharmos aquele muro entre dois jardins que quando não acaba, quando não tem consolo, as flores perderão suas cores e será tão frio como uma navalha afiada cortante. Parece não haver mais nada, nenhuma luz. Sair caminhando sem rumo e não encontrar nada, não encontrar alguém, algum alento e nenhuma esperança é pior que a morte, é pior que o esquecimento, pior que não conseguir chorar, pior que não ter para onde ir e aquela graça que Deus nos concedeu com sua abundância tão generosa em sua promessa divina e alegre e nesse mesmo tempo e espaço quando nos deparamos com outras tantas tristezas e pesares a nos surpreender e nos levar a pensar que talvez não nos é dado tempo suficiente para entendermos certas coisas, acontecimentos que nos colocam em xeque. Nos extasiamos ao ouvir pássaros cantando só por contemplar a chuva e isso nos deixa mais felizes, o ser humano jamais fará uma coisa dessas, não tem a capacidade de ser feliz apenas por estar vivo, ele quer algo mais, uma razão, um motivo, algo que o faça tratar melhor seu semelhante, ele precisará de algo mais sempre e essa felicidade é como um estalo e será passageira como ela deve ser e é. Nas dores das outras pessoas acreditamos que com nosso pesar a estamos confortando, mas não, nossa humildade poderá ser em vão, estamos apenas sendo gentis e isso é muito oportuno e fácil, o que não é de todo ruim, mas a outra pessoa não estará nesse mundo naquele momento doloroso. A humanidade sempre foi assim e sempre será, não existe essa coisa de novo isso ou novo aquilo, não temos esse discernimento, vemos o maltrapilho errante e drogado vagando sem rumo pelas ruas e acreditamos que ficamos sensibilizados, não ficamos, é só um sentimento de pena mais que passageiro, aquele vazio fuzilante que ele exala de seus olhos sem brilho quase sempre guarda algo terrível, uma lembrança que ele quer apagar, mas não nos interessa, estamos ocupados demais para isso. A isso chamamos vazio. Quando ficamos tristes com alguma coisa, nossa tristeza parece ser infinita, acreditamos ter o pior e o maior dos problemas do mundo, não queremos saber do problema do outro, isso não é nada, você não é nada, não tem nada, só está fingindo, é uma pessoa fraca, o seu vazio é só um vazio, e assim nosso egoísmo não tem tamanho, essa individualidade e esse egocentrismo não fazem bem ao espirito, principalmente em situações extremas, mas segue dessa maneira a humanidade há tempos. Existe uma grande comoção coletiva em qualquer momento, mas no nosso egoísmo dilacerante estamos contribuindo generosamente para que isso não acabe. Parece sarcasmo e é tão irônico que leva a crer que não nos importa nada mesmo, tudo parece passageiro, líquido e desimportante, mas como se vê, o preço é bastante alto. 

Tudo, enfim, é vazio, o vazio não cabe nas lacunas deixadas pelas dores e mágoas e o copo continuará cheio de ar ou de dor, o momento sombrio não aliviará nenhum rosto distante e nossa alma ficará alheia como esse vazio que não terá fim, jamais. 

Em nossa missão podemos viver alguns anos, muitos anos, mas como no levíssimo balé das borboletas podemos ser iluminados por uma presença celestial por alguns poucos minutos que nos elevará a uma plenitude jamais alcançada com a sensação de infinito e assim podermos esquecer tudo o mais e compreendermos que o amor é tudo. 




BEM-VINDO AO BRASIL E VOLTE SEMPRE QUE QUISER, COMO QUISER, E, ...SE QUISER!

 


Felizes cidadão e cidadã , vão visitar o Brasil? Eis o cartão de visitas:

Não gostamos de usar as setas dos nossos veículos, é que andaram espalhando por aí que são apenas acessórios e que poderão nos causar sérias lesões, nas cidades menores a coisa fica ainda pior, como todo mundo se conhece, tem-se a impressão de que já sabem quem vai virar onde e quando irão parar, mesmo que seja no meio da rua. Estacionamos nossos carros ou motos muito errado ocupando duas ou três vagas, talvez com receio de não conseguir manobrar o veículo, não assimilamos muito bem as orientações nas autoescolas, aliás, escolas sempre foram grandes problemas para nós brasileiros. Não respeitamos pedestres (faixas de pedestres são só riscos pintados no asfalto), não raro esses pobres diabos são atropelados até nas calçadas, um transtorno, e pra piorar, em uma hipocrisia monumental com uma mentalização de um camelo é claro que daremos a preferência aos outros veículos mas nunca aos pedestres. E os ciclistas? Esses estão sempre no nosso caminho nos atrapalhando, mesmo estando nas raríssimas ciclovias, dizem que são vulneráveis. E daí? As tais rampas implantadas para facilitar o acesso àquelas pessoas com dificuldades de mobilização e ou locomoção não faz a menor diferença para nós, já que as vagas para carros são disputadas a tapas, e você sabe né, é só uma paradinha rapidinha. Nos distraímos dirigindo falando ao celular, mas veja, nossas conversas são prioridade sempre, não podemos deixar de atender nosso chefe, nossos filhos e muito menos nossas esposas, preferimos evitar problemas e somos ótimos motoristas, conseguimos facilmente dirigir e telefonar ou enviar mensagens, e às vezes até tomando uma cerveja, somos muito fodas. Acreditamos que nas rotatórias a preferência é sempre nossa, é um círculo interminável, sendo assim, logicamente preferencial. Dirigimos no meio da via ignorando que existem duas ou mais faixas, mesmo que desenhado, ora bolas, nem teríamos esse discernimento, é um espaço geométrico quadrado, retangular, redondo ou linear, e na chamada mão inglesa, esquerda ou direita, tanto faz. Obstruímos estacionamentos com cones, caixas e outros adereços na ilusão que somos os donos da rua. Não temos paciência para esperar o semáforo digital chegar no 'verde', demorado demais, então arrancamos nosso veículo no ‘vermelho' mesmo, afinal o que são 3 ou 4 segundos? Nossa cultura não evoluiu e não nos ensinou que devemos ler os manuais, qualquer um, todos eles, muito menos os de trânsito. E, parceiro, não se esqueça de abastecer regiamente sua carteira ou seu cartão, afinal temos combustíveis de altíssima qualidade, pois são os mais caros de todo o mundo.

Talvez essa patifaria toda seja o reflexo do histórico dessa cultura superficial que nosso país se tornou ao longo de sua trajetória deliberadamente mesquinha e egoísta com a sensação de uma terra com um monte de lei, mas que não se cumpre nenhuma. É o banquete dos mendigos aloprados. Então, meu caro turista-motorista-malabarista que estará a passeio por aqui, redobre sua atenção e "volte sempre".

 'E pr’aquele que provar que eu estou mentindo eu tiro o meu chapéu.'

PÁTRIA AMADA QUE NOS PARIU


 

Ouvimos do Ipiranga ou do Brás ou da Papuda ou de Bangu ou de qualquer lugar que Deus é brasileiro e está morto ou está vivo, tanto faz. Nas margens plácidas desovam-se corpos sem importância na mais pálida semblante naturalidade enquanto na retumbância de um povo que deveria ser heroico, mas que nem brado é, de súbito gritou a liberdade que iluminou o céu dia desses uma tocha cegante explodiu nas maravilhas da nação com as paisagens contrastantes com barracos pendurados encravados nos morros fazendo fundos com as mansões suntuosas, são os herdeiros do caos onde muitos raios fúlgidos brilharam no mesmo instante em que assistimos atônitos nossa história virar cinzas, aquela liberdade que havíamos conquistado no seio da nossa pátria tão idolatrada com fortes braços que até as mortes foram desafiadas nas vãs ilusões da união de todos, e aquele sonho intenso se dissipou como um raio vívido e o amor e a esperança se perderam naquele céu formoso desenhando o cruzeiro mais que resplandecente, e então não se falou mais nisso. Talvez nem tenhamos a noção exata do que acontece no cotidiano da devassidão na vastidão país afora que desafia em nosso peito anunciando a própria morte em mares de lama, seja  no sentido figurado ou enlameado das gerais e as marianas desvalidas pelos nocivos senhores das cias. Cantamos com todos os pulmões que somos gigantes pela própria natureza com um futuro espelhado em grandezas impávidas e colossais. Se nossa terra é assim tão adorada pelos filhos deste solo entre tantas mil, olhai então por nós que a coisa está chegando a um nível absurdo com tanta pequenice. Gritaram uma vez e continuam berrando ‘acorda Brasil’, mas o que fazer se estamos deitados eternamente em berço esplêndido distraídos ouvindo apenas o som do mar e admirando esse céu tão azul e profundo como no sono eterno do mendigo errante, desgraçado, maltratado e maltrapilho? Masoquismo é coisa de doido e ser achincalhado, roubado, extorquido, surrupiado, humilhado, desdenhado e condenado eternamente não parece estar nos planos de pessoas que prezam pela honra, pela ordem e muito menos pelo progresso. Vimos que jamais seus filhos fugirão da luta. Então, meus caros brasileiros e brasileiras, o que está acontecendo com vocês, perderam o bonde da esperança? Na primavera absurda o Brasil fulgura no florão de uma América invisível e quase desimportante. Dessa terra garrida com lindos campos com flores, bosques e no seio de amores estamos há muito mostrando ao mundo uma imagem tosca e inerte, é certo que somos terceiro mundo, mas podemos idolatrar nossa pátria amada sem remorso, culpa ou vergonha, então, acreditemos em um amor eterno simbolizando o lábaro ainda estrelado na sustentação da honra e do patriotismo, balancemos nossa bandeira que há alguns dias vestiu de ódio alguns cidadãos alheios e na inversão dos valores daqueles lá é a flâmula com as cores da paz e do futuro que espelha toda essa grandeza, apesar da torcida contra ser imensa. Na composição de outrora, a nobre pena discorreu que entre outras mil a Terra é adorada, então por que será que “jogamos a toalha” ou algo assim? Os irmãos estão ora malhando, ora louvando seu maior representante por quatro ou ainda oito anos no revezamento da torcida numa atitude grosseira e nada inteligente. E ainda tentamos conquistar com braços fortes a liberdade, só que parece estarmos constantemente sob efeito de algum psicotrópico alucinógeno fortíssimo remetendo a retardamentos mentais por condição, rimos sem motivo e aplaudimos espetáculos de terror, chutamos latas nas madrugadas só pra variar. Uma afronta! Se és belo, és forte, impávido colosso, então porque deixas ser monopolizado pela singularidade de um país estreitamente limitado em várias questões onde uma facção minúscula comanda uma mega quantidade de eventos com mais de duzentos milhões de espectadores atordoados que passeiam por lindos bosques e campos com flores ou sem flores, os políticos-bandidos se revezam no quartel-general do horror, conduta comum em um mundo tão globalizado onde numa Terra com risonhos campos se aceita todo esse circo medonho com a naturalidade alheia de um réptil, mesmo sabendo que não haverá escolha, liberdade, nem amores no teu seio sem a opção para erguer a clava forte da justiça, pois fomos lobotomizados para nos condicionar e não termos mesmo escolha e assim nem dá pra saber quem é o mais despatriotado nessa história toda. Parece não ter jeito, é uma sensação de ilusão vagueante com atitudes desentendidas.

Se nem consigueremos reverenciar o clamor da ópera trágica que montamos e apresentamos com nenhuma emoção, vamos então refletir no resumo dessa crônica lírica quase plagiada e fora de contexto: se a mãe é gentil e somos filhos deste solo, vamos continuar sonhando e tentar conjugar juntos o verbo ‘acreditar’ no presente do indicativo e quem sabe nesse sonho intenso, num raio vívido de amor e de esperança consigamos até despertar nossa Pátria Amada Idolatrada. Salve! Salve!

O DESFAZIMENTO DO BRASIL



Todo ano passamos batidos por cima do dia 22 de abril. Há tempos nosso Brasil está diferente, estranho, com pessoas estranhas, gente esquisita.


Era aquela como a importante data do ‘achamento’ da então paradisíaca Ilha de Vera Cruz que nem sabemos ao certo quem chegou por aqui primeiro, se os portugas Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias, Duarte Pacheco Pereira ou o espanhol Vicente Yáñes Pinzón. Temos também duas datas para o avistamento da costa que ocorreu nas imediações do Monte Pascoal (O Monte Pascoal é uma imponente elevação de 536 metros no sul da Bahia, famosa por ser o primeiro ponto de terra avistado no ano de 1500. Situado em Porto Seguro, dentro de um Parque Nacional de 22 mil hectares, o local oferece trilhas guiadas por indígenas Pataxó, Mata Atlântica preservada e conexão histórica.) sendo a nova terra denominada inicialmente Ilha de Vera Cruz e, posteriormente, Terra de Santa Cruz. A data tradicional de 22 de abril de 1500, baseia-se na ‘Carta de Pero Vaz de Caminha’, quando prevalecia o ‘Calendário Juliano’ (O Calendário Juliano foi um sistema solar instituído pelo líder militar e político romano Júlio César em 46 a.C., entrando em vigor em 45 a.C. elaborado com o astrônomo Sosígenes de Alexandria para substituir o calendário romano lunar) e corresponde a 3 de maio de 1500 no ‘Calendário Gregoriano’ (O calendário Gregoriano é o sistema de contagem de tempo solar mais utilizado no mundo atualmente, incluindo o Brasil, introduzido em 1582 pelo Papa Gregório XIII para substituir o calendário Juliano. Ele organiza o ano em 365 dias (ou 366 em anos bissextos) e foi criado para corrigir defasagens astronômicas). Resumindo: nem sabemos quem nos achou nem quando. 


O que fazer se nem festejos temos quando sequer feriado é e de quebra ninguém liga nem lembra, apenas sabe-se que às vezes poderá ser feriadão nas emendadas com o dia anterior do inconfidente e quase meu homônimo Joaquim José da Silva Xavier, também conhecido por Tiradentes, era o ‘Alferes dos Dragões’, que também poucos sabem da sua importância e sua história e que o infeliz passou a vida carregando seu algoz traidor Joaquim Silvério dos Reis em suas sombras. 


Vamos voltar alguns anos pra refrescar nossa historicamente curta e ácida memória para lembrar a data fatídica da inacreditável reunião desse mesmo dia 22 de abri. O ano era 2020. Em um contexto pavoroso a narrativa parecia sair de uma latrina transbordante e imunda. Nos apresentaram um vídeo (guardado a sete chaves) com o título de "Reunião ministerial", mas quando deveríamos nos orgulhar ficamos perplexos, ao menos uma parte sensata dos brasileiros, a outra parcela vive no mesmo mundo paralelo até hoje, como se fossem cegos, surdos e mudos. Naquelas mesas circundando a sala que de tão escusa não se podia acreditar donde brotaram aqueles semblantes sórdidos na nudez daquela já citada tão esperada divulgação de uma reunião da malandragem quando em pouco menos de duas horas onde nunca se viu tanto cafajeste e tanta cafajestagem amontoados, era a juntada do cadafalso imaginário do inferno com a regência de um caricato e nada carismático mestre fajuto de cerimonias que em um revés conspiratório de mãos dadas com uma corja inominável se revezava nas blasfêmias cuja bola da vez eram os deboches, os desdéns, muitos palavrões (estima-se ao menos 43), citações bizarras e as ofensas metralhando ataques berrantes às instituições e a desconstrução monumental da constituinte com personagens que deveriam representar a pátria, foi um autêntico show de horrores que explicitou a servidão ao fascismo brando levando à perplexidade mundial e tão somente a confirmação doméstica anunciando o intermezzo de uma era ainda mais sombria com o totalitarismo intestinal mostrando as caras pelas ruas e nas plataformas governamentais e digitais que mais que se concretiza e cresce como capim. A deterioração da república nunca foi tão evidente, senhores da alta cúpula governamental nocivos à nação usando a bandeira do Brasil (um dos símbolos nacionais brasileiros, ao lado do Laço Nacional, do Selo Nacional, do Brasão de Armas e do Hino Nacional) como camuflagem do terror, as tão louvadas forças armadas sendo ridicularizadas por membros irresponsáveis, o tal comandante-mor desfigurando todas as normas e regras democráticas, ministro da educação que chamou o escritor Kafka de cafta mandando recado aos magistrados chamando-os de vagabundos, o ‘responsável’ pelo sofrido meio-ambiente em uma atitude horrenda soltando de sua boca encardida ‘…e ir passando a boiada’, mais deprimente impossível, e também um tal senhor das trevas que se dizia genial e trucidou as economias do país esbravejando patifarias pelas ventas e que imediatamente após a derrota nas urnas se safou para as ilhas paradisíacas dos offshores. Para aquela quadrilha inominável a carta magna não passa de um livro e que ignoram seu conteúdo, pois jamais o abriram de verdade.


Passado algum tempo, nada aconteceu e sabemos que nada acontecerá, somos passivos, fazemos passeatas e carreatas prós e contras e nem sabemos para quê, por que, nem para quem, gritamos por justiça, por uma liberdade virtual que nem a metafísica explica, berramos por melhores condições de vida, mas na conivência do caos instituído observemos que muitos desses senhores continuam passeando alegremente com seus cargos pelos corredores de Brasília, são os mentores da sessão da barbárie que foram amplamente votados em todas eleições se elegendo senadores, deputados e governadores. Com atitudes como essa, talvez tenhamos mesmo a sensibilidade de um liquidificador quebrado.


O que essa gente fez e o que está fazendo com o Brasil não tem explicação: 'seus calhordas, respeitem nosso país, aqui não é vossa casa, aqui não é um bordel, nossa pátria não está à venda, devolvam nossa bandeira, e, se puder, desapareçam, mas não voltem!'

 

Brasil, 22 de abril (?)


Altair José

O BEIJO

 




Beija eu! Canta docemente a Marisa Monte. Vai lá, pode beijar o seu amor agora mesmo, lasque aquele beijão de estampido e de arrepiar. Pode sim mandar um beijo fraterno p’raquele seu amigo distante. Meu pai partiu antes do amanhecer, então prefiro beijar o céu, ele vai sorrir com tanto afeto que vou ficar feliz, e se sua mãe ou alguém querido seu também teimou em ir-se com pressa e sem avisar, pode beijar o ar, nem precisa ter uma razão, a razão não tem sentido, assim como o amor também não, os quereres são assim mesmo, a qualquer hora e de qualquer jeito. Têm aqueles que se cumprimentam com um só beijo no rosto, mas têm outros que se beijam com dois ou três até, e alguns com um caloroso e amigável beijo na boca, um tal ‘selinho’. O nosso rei cantarolou que ‘Aquele beijo que te dei, nunca, nunca mais esquecerei’, ficou na lembrança de um passado lindo e florido que nunca, nunca mais há de voltar. No escurinho do cinema é arriscado, mas é bem legal chupando drops de anis e comendo pipoca, né mesmo, Rita de Sampa? E aquela garota magricela, sardenta, descabelada e linda que nunca te deu bola e nem sequer um inocente beijo e te deixou na saudade. Que menina cruel você. A Nalva Aguiar que tem um beijinho doce e o Elvis com beijo tão rápido, Kiss me quick. Tem aquele beijo todo molhado, na pontinha do nariz, beijo gelado ou também o quentíssimo, o beijo só por sinais (vale também), beijo de língua, beijo roubado, aquele cinematográfico ou pornográfico, de novela, que dizem não ser real (mas é sim), beijo mandado, beijo soprado, beijo até no pé (nem pensar fazer isso na minha namorada), beijo sensual, o beijo na nuca, nas costas, na barriga e…por aí se vai... Se quiser, pode ser até em inglês, que está tão na moda, diga e dê um kiss igualzinho a banda linguaruda de rock que é bem legal, e o beijo roubado, que é o melhor de todos. Eu também, eu também quero ‘bejá’, como poetizou o roqueiro inspirado em um bailarino francês lá naqueles idos anos oitenta que não passaram de um sonho.
Tem gente dizendo que dia 13 de abril é o ‘Dia do beijo’; que bom, então, nesse dia vou mandar um beijo para todas as pessoas do mundo, todas elas, e um beijo especial só pra ‘você’:


SMACK!!!!

DEZ POR CENTO

 

O poeta maluco-beleza já dizia que somos ridículos, limitados e que usamos alguns porcentos de nossa cabeça animal, pudera, são 100 bilhões de neurônios que habitam o cérebro do ser humano e apenas 15% estão ativados. Dos seres vivos, alguns utilizam de 3 a 5% de sua capacidade cerebral, e pra reforçar o poeta, o ser humano utiliza até 10% e os golfinhos 20%. O fato é que algumas pessoas não conseguem utilizar nem os ínfimos 3% dessa capacidade, pessoas estas com comportamentos sem nenhuma correlação com a realidade, atitudes dantescas, discursos pavorosos e ainda assim muitos deles são os condutores de locomotivas entupidas de gente se equilibrando e, mesmo sabendo que a ignorância traz o caos existem milhares que são coniventes com esse ruído. Assistimos assim à reprise lastimável, interminável e fantasmagórica de grupos renovados sem novidades em um contrassenso que está virando piada pronta e caminhando na contramão do mundo inteiro. Parece briga de torcidas ensandecidas; tecnocratas com expressões estranhas e/ou apalermadas e ares de deboche profanando palavras e frases absurdas, assassinando todas as vias de comunicação - que por si só já é um horror – jogam baldes de merda no ventilador com a naturalidade de um débil mental, confundem nossas cabeças despejando um emaranhado de tolices, a toda hora somos surpreendidos com artimanhas sem nenhum sentido com explicações ainda mais disparatadas onde nossos direitos adquiridos são violentamente estuprados até às tripas e ainda colocando a culpa da falência da nação sobre nossas costas subestimando assim nossa inteligência. Colegas de plenário, quando deveriam estar trabalhando, se estranhando publicamente tal qual briga de comadres por motivos fúteis em cenas horrendas onde cada um querendo aparecer mais que o outro numa incandescente fogueira das vaidades. Discursos desnecessários, ridículos, irracionais e paliativos: “eu te odeio hoje, mas tudo bem, amanhã almoçaremos juntos”, canalhas de terno e gravata, é como se nosso país fosse realmente um grande bordel a céu aberto; tratam-se uns aos outros patética e inexplicavelmente de “Vossa Excelência”, vulgarizando um pronome de tratamento tão nobre quanto seu significado e, é muito óbvio que tal reverência não serve para esses senhores, provando assim que estão se lixando para nossos gigantescos e intermináveis problemas, não nos esqueçamos, são esses os representantes políticos que determinam nossos destinos e o futuro do nosso país. Aquela vontade incessante de regurgitar que assola aos que ainda têm uma centelha de esclarecimento e sensatez está aflorada e a ânsia de soltar para fora esse ranço todo parece não ter um fim. Pela maneira que estão tratando nosso país, atropelando decretos e leis e inventando outras tantas que esfolam ainda mais seus filhos, nos dá a impressão funesta de que somos um bando de criminosos sofrendo sanções da corte suprema nos corredores da morte à espera agonizante da execução. E nessa angústia toda não sei dizer onde vamos parar com toda essa estupidez. Não me lembro de ter colaborado com o colapso do meu país. Então, que tenho eu com isso se tudo está despedaçado? Que pague a conta quem a contraiu. Não é assim? O pior dessa história toda é que a imensa parte da população, com atitudes primitivas, apoia tudo isso com argumentos vazios e nada convincentes, talvez não são sabedoras da catástrofe iminente que os espera, parece tragédia anunciada, é a desesperança aflorada que outrora fora esperança convicta, ou ainda a descerebração congênita incurável e contagiosa onde a percentagem neuronal diminui progressivamente. Se somos ridículos e limitados, espero continuar imune a essa esquistossomose cerebral toda e usar pelo menos algumas razões que me restam.

Raul, depois quero voltar golfinho.

PUSERAM ÁCIDO NO MEU LEITE

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