Vemos um copo vazio, que também pode estar cheio de dor ou cheio de ar, repleto do nada e podemos olhar para esse nada e enxergarmos coisas. Há um olhar perdido a mirar o horizonte na imaginação do que não pode existir, o que não dá para alcançar, um sonho, uma luz, uma esperança, talvez um novo mundo, quem sabe um pouco melhor. O tempo é mágico e pode ser tão bonito quanto o arco-íris, mas é também o senhor de todos os destinos, é o que acreditamos ser o tempo da vida que nos faz crer em muitas coisas, os deleites e os sorrisos nos momentos de felicidade que desejamos que perpetue, mas é só um sonho e sonhos são só sonhos, são desejos, vontades, por isso nos é permitido sonhar sem nenhuma culpa ou precisar pedir licença nem autorização a ninguém. As pessoas queridas se vão, nem sequer nos avisam, não nos permitem pedir que fiquem só um pouquinho mais, apenas se vão, algumas pra nunca mais voltar e outras pra nunca mais, nos fazem chorar, estilhaçam nosso coração, mas não é por mal, não é por querer, o poeta em seu lamento cantou que 'a saudade é a metade arrancada de nós e poderá ser o revés do parto quando for arrumar o quarto de alguém que já partiu', naquele adeus eterno e infinitamente doloroso, não existem dor nem vazio piores e assim alguma descrença toma conta dos nosso coração que poderá ficar escuro, quase sem vida, podemos chorar lágrimas inundadas para nos confortarmos ou apenas um alivio momentâneo, aquela sensação de vazio, aquele vazio imensurável que parece não ter um fim, a dor pode ser tanta que se existe uma alma e se essa alma puder sentir dor, então noss’alma ficará muito perto de desaparecer e nossos corações prestes a explodir, não haverá consolo, não há como buscar as forças, ficamos inertes e isso nos causa tanta tristeza que ao olharmos aquele muro entre dois jardins que quando não acaba, quando não tem consolo, as flores perderão suas cores e será tão frio como uma navalha afiada cortante. Parece não haver mais nada, nenhuma luz. Sair caminhando sem rumo e não encontrar nada, não encontrar alguém, algum alento e nenhuma esperança é pior que a morte, é pior que o esquecimento, pior que não conseguir chorar, pior que não ter para onde ir e aquela graça que Deus nos concedeu com sua abundância tão generosa em sua promessa divina e alegre e nesse mesmo tempo e espaço quando nos deparamos com outras tantas tristezas e pesares a nos surpreender e nos levar a pensar que talvez não nos é dado tempo suficiente para entendermos certas coisas, acontecimentos que nos colocam em xeque. Nos extasiamos ao ouvir pássaros cantando só por contemplar a chuva e isso nos deixa mais felizes, o ser humano jamais fará uma coisa dessas, não tem a capacidade de ser feliz apenas por estar vivo, ele quer algo mais, uma razão, um motivo, algo que o faça tratar melhor seu semelhante, ele precisará de algo mais sempre e essa felicidade é como um estalo e será passageira como ela deve ser e é. Nas dores das outras pessoas acreditamos que com nosso pesar a estamos confortando, mas não, nossa humildade poderá ser em vão, estamos apenas sendo gentis e isso é muito oportuno e fácil, o que não é de todo ruim, mas a outra pessoa não estará nesse mundo naquele momento doloroso. A humanidade sempre foi assim e sempre será, não existe essa coisa de novo isso ou novo aquilo, não temos esse discernimento, vemos o maltrapilho errante e drogado vagando sem rumo pelas ruas e acreditamos que ficamos sensibilizados, não ficamos, é só um sentimento de pena mais que passageiro, aquele vazio fuzilante que ele exala de seus olhos sem brilho quase sempre guarda algo terrível, uma lembrança que ele quer apagar, mas não nos interessa, estamos ocupados demais para isso. A isso chamamos vazio. Quando ficamos tristes com alguma coisa, nossa tristeza parece ser infinita, acreditamos ter o pior e o maior dos problemas do mundo, não queremos saber do problema do outro, isso não é nada, você não é nada, não tem nada, só está fingindo, é uma pessoa fraca, o seu vazio é só um vazio, e assim nosso egoísmo não tem tamanho, essa individualidade e esse egocentrismo não fazem bem ao espirito, principalmente em situações extremas, mas segue dessa maneira a humanidade há tempos. Existe uma grande comoção coletiva em qualquer momento, mas no nosso egoísmo dilacerante estamos contribuindo generosamente para que isso não acabe. Parece sarcasmo e é tão irônico que leva a crer que não nos importa nada mesmo, tudo parece passageiro, líquido e desimportante, mas como se vê, o preço é bastante alto.
Tudo, enfim, é vazio, o
vazio não cabe nas lacunas deixadas pelas dores e mágoas e o copo continuará
cheio de ar ou de dor, o momento sombrio não aliviará nenhum rosto distante e
nossa alma ficará alheia como esse vazio que não terá fim, jamais.
Em nossa missão podemos viver alguns anos, muitos anos, mas como no levíssimo balé das borboletas podemos ser iluminados por uma presença celestial por alguns poucos minutos que nos elevará a uma plenitude jamais alcançada com a sensação de infinito e assim podermos esquecer tudo o mais e compreendermos que o amor é tudo.

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