O interpessoal Pessoa transgrediu
nas pessoas as regras do normal e na farsa autopsicográfica se fingia de outros,
mas em qualquer um deles confessou que o poeta é um fingidor que finge tão
completamente que chega a fingir que é dor. Isso que você vai ler aí embaixo será
mais ou menos isso, uma grande mentira, então, se eu fosse você procurava
alguma coisa melhor para fazer antes que seja tarde.
Dresden,
Alemanha, 13 de fevereiro de 1945, em meio ao segundo maior erro da humanidade,
eu e Kurt Vonnegut nos escondemos no depósito abandonado para porcos prestes a
serem abatidos no frigorífico do Matadouro-5que ficava no subsolo três andares
abaixo da rua onde havia carcaças de gado, cavalos, ovelhas e porcos penduradas
em ganchos. De volta à superfície, o Kurt olhou para o céu negro de fumaça e com
uma voz perdida murmurou:
“Era frio lá dentro,
com corpos pendurados.
Quando subimos, a
cidade havia sumido...
Eles queimaram a
cidade inteira.”
A
cidade havia sido reduzida a cacos e incendiada. Nos sentamos entre escombros e
corpos, 135 mil corpos jaziam espalhados por toda a cidade, ou o que restou
dela. Deitado em uma pedra ali pertinho olhando para o nada, o coronel Walter
E. Kurtz murmurava: "O horror... o horror..." Desesperançosos
fechamos os olhos e quando os abrimos já havíamos nos teletransportado para o
planeta Tralfamador. Nessa abdução maluca percebemos que estávamos em jaulas, nus,
feito animais exibidos como atrações em um zoológico, lá estava também o Billy
Pilgrim, o optometrista e soldado americano, também conhecido como ‘O Viajante
do Tempo’.
‘Coisas da vida’
Depois
desses episódios, sem saber e sem querer, percebi que, devido ao dom de viajar
pelos tempos, lugares e épocas diferentes, como os três mundos da Triquetra: um
é o universo original e os outros dois são paralelos, convivi com as mais
fascinantes cabeças pensantes. Você também pode, basta usar a imaginação.
Viagens cósmicas.
Raiou o dia, notei que estava de volta em casa. Mandei a tristeza às favas, cambaleante embriagado de sono tropecei no ar, escancarei as janelas e agarrei no vento poesias. Cai de cara sobre alguns livros de muitas orelhas com páginas amarelecidas e gastas pelo tempo e muito uso espalhados pela casa, separei alguns milhares e tantos, coloquei na mochila e quando já ia saindo para viajar reparei que os senhores HG Wells e o Albert Einstein estavam no meu sofá conversando. Sentei-me ao lado deles e fiquei ouvindo e nada entendendo. O assunto, claro, me interessou, eles discutiam sobre viajar no tempo, para o futuro e o passado, faziam cálculos imensos, trocavam ideias, estavam agitados e eufóricos. O senhor Wells com base em seus conceitos matemáticos, mostrava ao senhor Einstein desenhos de uma máquina capaz de se mover pela Quarta Dimensão, neste caso considerada como a dimensão do tempo, mais especificamente para o futuro. A ideia de viajar no tempo não era novidade, não se iniciou com Wells, ela já existia havia muito tempo, se não sempre, nos sonhos dos homens. Já a teoria da relatividade de Albert Einstein demonstrava que a viagem no tempo para o futuro era cientificamente possível através da dilatação do tempo, onde relógios se movem mais devagar em velocidades próximas à da luz ou em campos gravitacionais intensos. Viajar para o passado, no entanto, permanece teórico, enfrentando paradoxos causais. ‘Dilatação Temporal Gravitacional’: Buracos negros, com sua gravidade extrema, distorcem o espaço-tempo, retardando drasticamente a passagem do tempo em sua vizinhança. ‘Tempo Relativo’: Einstein mostrou que o tempo não é absoluto. Ele pode ser esticado ou comprimido, o que significa que o tempo de cada pessoa depende de sua velocidade e da força da gravidade ao seu redor. Voltar ao Passado (Teórico): Teorias como os "buracos de minhoca" (pontes no espaço-tempo) ou cilindros em altíssima rotação poderiam permitir o retorno, mas exigem energia negativa ou condições nunca observadas na natureza. A "Ilusão" do Tempo: Einstein mencionou que a distinção entre passado, presente e futuro é uma "ilusão teimosamente persistente", sugerindo um "universo de bloco" onde todos os eventos já existem. Embora avançar no tempo seja uma consequência direta da física relativística, retroceder no tempo continua sendo um desafio teórico devido aos paradoxos. Os dois nem perceberam minha presença, e, sem que notassem, deixei-os ali mesmo, pois concluíra que eu mesmo já estava vivenciando aquelas teorias que estavam saindo como foguetes daquelas mentes absurdas, e eu nem me atreveria a entrar no assunto.
Subi num ônibus velho caindo aos pedaços daqueles do tipo jardineira rumei pelas estradas sinuosas no mundo das letras enquanto músicas eram espalhadas no céu como fumaça em formato de partituras. Logo saltei numa cidadezinha qualquer de vida besta e entre casas, bananeiras, mulheres e laranjeiras encontrei um senhor de silhueta alegórica calvo como um anjo torto de terno impecavelmente alinhado de óculos fundo de garrafa maiores que sua cara a balançar-se em sua cadeira de balanço (aquela mesma que nem a Kombi vazia se interessou). Pendularmente num vaivém infinito a balançar-se com olhar perdido lá pelos confins do infinito vendo a vida indo devagar e assim muito devagarinho que parecia que seus ombros sustentavam o mundo. Veio até mim com seu cachorro magro e sarnento, me olhou fixamente pensativo e com aquela sua voz muito rouca disse: e agora Altair José? Havia algumas pedras em seu caminho, depois de tentar ajudá-lo a retirá-las sem sucesso me despedi daquele senhor delineado e segui viagem. Sentei-me num barranco de terra vermelha como o fogo na sombra de uma árvore para descansar ouvindo pássaros cantar. Que de susto me apareceu pedalando tortuosamente a Marina Colasanti que deixou cair sua bicicleta e foi logo me questionando
“Que a gente sabe que
se acostuma
com um monte de
coisa, mas não devia;
a gente se acostuma
para não se ralar na aspereza, para preservar a pele;
se acostuma para
evitar feridas, sangramentos’ –
Fiz
uma cara de interrogação abobalhada e absurda -,
ela
nem deu bola e assim continuou:
'para esquivar-se de
faca e baioneta,
para poupar o peito;
a gente se acostuma
para poupar a vida,
que aos poucos se
gasta,
e que, gasta de tanto
acostumar,
se perde de si mesma”,
Me olhou secamente, catou sua magrela e se mandou irreverentemente como um bêbado equilibrista cambaleante com seu chapéu coco. E eu, depois de ouvir atentamente aquela reflexão ao menos interessante e antes que curasse minha zonzeira avistei naquela espelunca de esquina encostado no balcão o Charles Dickens com sua cabeleira desgrenhada que me apresentou o Oliver Twist, um moleque órfão e degenerado que tinha como parceiro outro moleque delinquente e ladrão, John Dawkins, manjado pelos meios marginais como o Matreiro que o acolheu em Londres e se diz protegido de um velho judeu conhecido como Fagin, anarquista treinador de ladrões e também ladrão. Depois de um roubo malsucedido Oliver foi preso e contraiu febre. Muitas aventuras sarjetas afora depois acaba adotado por um senhor que se dizia honesto. E assim sua história seguiu por encrencas, sarjetas e aventuras. Traçando um paralelo desse enredo com o mundo de hoje, não tem nada que aconteça que possa alterar o comportamento humano, seja para o bem ou para o mal, é um círculo vicioso e doentio, é a moléstia que a humanidade criou, cultiva e alimenta até hoje. Me despedi do Oliver que parecia ter tomado juízo (acho que não) e do senhor Dickens que precisava trocar umas correspondências para assim poder relatar os acontecimentos das duas cidades com reflexões sobre culpa, vergonha e retribuições, tudo isso tendo como pano de fundo a Revolução Francesa (1789-1799). No roteiro dessa minha viagem tão estranha (mentirosa) quanto maravilhosa embarquei no balão do Júlio Verne, demos umas voltas pelo mundo em uns bons oitenta dias, viajamos até o centro da Terra, mergulhamos algumas léguas submarinas, conhecemos uma fantástica ilha misteriosa e fomos da Terra à Lua em um segundo e depois de cinco semanas estacionamos nosso balão no farol do fim do mundo onde ficamos dois anos de férias. Assim que renovei minhas energias me apareceu o Virgílio que recitava sua Eneida guiando o Dante em meio a sua comédia tão divina, passeamos pelos três estágios da humanidade naquele viés tão assustador, épico ou teológico, o inferno, o purgatório, e por fim, o paraíso, ainda bem que as letras eram naquele italiano tão vulgar quando didático, pois naquela época, lá pelo século XIV, a maioria escrevia em latim clássico complicado. Dentro de um poema muito articulado do senhor Alighieri rastreamos a razão e a fé com um final meramente feliz na comédia contrastando com a tragédia:
“Por mim, se vai à
cidade dolorosa;
por mim, se vai às
penas eternas;
por mim, se vai junto
da gente perdida.
A justiça moveu o meu
supremo autor. […]
Antes de mim coisa
nenhuma foi criada,
a não ser o eterno, e
eternamente existirei:
vós, que entrais,
abandonai toda a esperança.
Estas palavras
sombrias vi escritas sobre uma porta
e disse: «meu mestre
[Dante dirige-se a Virgílio],
não apreendo o seu
significado.»
E ele, como homem
clarividente, assim me respondeu:
«deve deixar-se aqui
todo o receio;
aqui deve morrer toda
a baixeza.
Chegamos ao lugar
onde te disse
que verias a gente
condenada
que o bem do espírito
perdeu».
Trecho
do Inferno de Dante (Canto I)
“No meio do caminho
desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.
Ah, como armar no ar
uma figura
desta selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?
É quase tão amargo
como a morte;
mas para expor o bem que encontrei,
outros dados darei da minha sorte.”
Nessa proposta medieval
filosófica já no século XIX, consegui compartilhar também de uma temporada no
inferno em devaneios com o poeta francês que simpatizava com as comunas e
traficava armas aos guerreiros da época...
“Mãos sagradas, em
vosso punho,
onde acolheis, nossas
bocas jamais saciadas,
gritam grilhões de
alvos anéis!”
O viajante desregrado que
queria
"Tornar-se
um louco muito mal"
Arthur Rimbaud, que
conseguia ser tão maldito e perverso
“Por
ora sou maldito, tenho horror à pátria”
"Perverso
teimava em se trancar no frescor das latrinas,
para pensar em paz,
arejando as narinas”
E genial em uma época decadente passou sua breve vida correndo pelo mundo, assim foi difícil acompanhá-lo. Enquanto lia seus belos, complexos, incompreendidos e sensacionais poemas, me despedi dele que saiu de fininho ao encontro de seu companheiro escandalizante da hipocrisia daquelas eras, o poeta do simbolismo Paul Verlaine, uma afronta ainda nesses nossos ululantes dias em que a maldade impera soberana sobrepondo a sensatez. Nisso o Balzac chegou para mim e disse que precisava conhecer melhor a classe camponesa e seus ambientes, pois a comédia humana é muito complexa para ficar apenas nos meandros das mulheres de trinta com suas perdidas ilusões, como as filosofias também estavam em sua mala de viagem sempre atento à procura do absoluto em sua vasta e perfeita obra, como a Júlia, personagem principal, nascida para ser bela, recatada e do lar. Ao longo da vida vai amadurecendo e vive um grande drama, que inclui todas as vivências que o casamento, a maternidade, o adultério e a depressão podem oferecer, retratando como era ser mulher no século XIX. Por meio dessa personagem, Balzac mostra que a beleza da mulher de trinta anos é outra: a da maturidade. Numa flutuação quase insustentável tão leve que todo ser humano carrega nas costas, estávamos eu e o Milan Kundera refletindo sobre a existência humana como um enigma resistente à decifração, a Teresa e o Tomas chegaram juntos e com eles também a Sabina e o Franz, eles, cada qual com sua leveza tentando se equilibrar nas asperezas e tentando amenizá-las enquanto o Milan lançava um olhar clínico para a juventude desiludida, as desorientações dos intelectuais e a prepotência dos líderes políticos combinado com a vida mais que ordinária das pessoas ditas comuns (de novo, nada de novo, de novo então? Mirava na República Tcheca após a invasão russa na parceria com alguns países no Pacto de Varsóvia em 1968, a Primavera estava desfolhada como a um outono, tudo para ele não passava de uma risível brincadeira sem graça na valsa dos adeuses. Continuei minha viagem sideral e me comovi quando cheguei naquela mina de carvão onde os operários estavam em rebelião onde germinava as ideias e ideais socialistas contra a opressão, explodia uma greve de proporções trágicas, mas, como sempre acontece com as classes minoritárias e fraquejadas, pelas condições que lhes são impostas, foram neutralizados.Parece que o mundo enquanto razão nunca conseguiu acertar seus eixos.E o Zola partiu para defender aquelas classes massacradas em seus artigos como a publicação de J'accuse nos jornais da época sendo acusado de difamação e preso depois exilado na Inglaterra, mas ganhou a causa do oficial Dreyfus condenado injustamente, saiu da corte direto para se consolar nos braços da Nana. Fiquei ainda por um tempo naqueles tribunais franceses e consegui acompanhar o processo de Gustave Flaubert onde teimava em dizer que a Madame Bovary era a personificação dele mesmo "Emma Bovary c'est moi", e que o puritanismo ridículo imposto pela sociedade não passava de luxúria e preciosismo inúteis, não houve ofensa direta à moral nem à religião, apenas um retrato, ainda que ácido, sincero e real, nada além disso:
"Gostava do mar
apenas pelas suas tempestades
e da verdura só
quando a encontrava
espalhada entre ruínas".
Foi absolvido pelo tribunal,
mas não pela sociedade e muito menos a crítica hipocritamente purista por ter
minimizado o tema do adultério, detonado o clero e dizimado a burguesia. É o
romance dos romances em um realismo explícito criando o bovarismo na
psicologia baseado nas características da protagonista. Um vento muito forte
começou a soprar que parecia uivar no meio daqueles morros, tentei achar um
abrigo, mas não havia, me protegi atrás de uma rocha onde estavam o Heathcliff
e a Cathy conversando com a Emily Brontë a respeito dos recentes acontecimentos
da Granja da Cruz dos Tordos em Gimmetton, na Inglaterra. Consegui sair daquele
lugar frio de vento cortante e no caminho encontrei o Edgar que estava à
procura da Cathy, trocamos um breve e desconfiado olhar e seguimos nossos
caminhos. Dei uma rápida olhada para trás e ele já havia sumido na névoa fria,
fiquei com a impressão de que aquelas almas estavam tão frias quanto aqueles
ventos uivantes. E assim de repente e do nada, nos mesmos moldes da Marina, me
surgiu um certo senhor Mário, o Quintana me aplicando uma lição dizendo
que
“A vida é uma tarefa
que trouxemos
para fazer em casa”
e
me alertou
“Que já eram seis
horas”
E que eu ficasse atento que ele apareceria nessa minha viagem maluca numa esporadicidade despercebida. E da mesma maneira que apareceu, desapareceu nas nuvens prometendo... ‘volto já’. Fiquei um tanto intrigado e ainda mais zonzo com tanta sagacidade e me questionando ‘o que há na mente dessa gente?’. Numa época em que o mundo explodia literal e metaforicamente em cores vibrantes do movimento contracultural onde o sol parecia brilhar ainda mais (...let the sunshine in) na Era de Aquário com as mensagens como 'paz e amor', o amor livre, a explosão das seminais bandas psicodélicas em meio ao flower power e aquelas meninas com flores nos cabelos, 'If you're going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair. Era o ‘verão do amor’, a cultura estava acelerada, a música era puro manifesto, a moda erguia sua bandeira, nessa efervescência a juventude funcionava como religião, e toda aquela magia em contraste com a triste e inexplicável Guerra do Vietnã. Coloquei novamente o pé na estrada como um ser errante pra pedir carona onde encontrei perambulando com sua mochila surrada nas costas o anjo desolado, incorrigível e inquieto viajante solitário junkie Jack Kerouac, o maior dos vagabundos iluminados da Geração Beatque estava com seu rolo de papel de pão rabiscando seu diário de viagem ‘Pé na Estrada’ (On the Road), a bíblia daquela geração alucinada. Me encarou e de pronto disse que
'Não havia para onde
ir além de todos os lugares,
então apenas continue
rolando sob as estrelas'.
"Qual é a sua
estrada, homem?
A estrada do místico,
a estrada do louco,
a estrada do
arco-íris, a estrada dos peixes,
qualquer estrada...
Há sempre uma estrada
em qualquer lugar,
para qualquer pessoa,
em qualquer
circunstância.
Como, onde, por
quê?"
“Um dia hei de renascer numa grande
cidade
de outro sistema planetário, no
passado ou no futuro,
onde uma única montanha de 5
quilômetros de altitude
se recorta no céu azul - com toda a
compaixão
que sinto dentro de mim, a única
coisa
que vou precisar é da sabedoria da
terra."
Assim nos subterrâneos das
paixões humanas nos empoleiramos na carroceria de um velho caminhãozinho Ford
que em meio à poeira passava por ali. Uma viagem inesquecível, havia uma penca
de seres desajustados se apertando entre porcos, nômades, galinhas e ainda
alguns mortais e outros tantos normais, mas com as mentes em devaneios. Ali
estavam aqueles caras da geração beat, o barbudo Allen Ginsberg,
o drunk de mente espontânea uivando como um doido mais ou
menos assim:
UIVO
“Eu vi as
mentes mais brilhantes da minha geração destruídas pela loucura, famintas
histéricas nuas,
a
arrastarem‐se
na aurora pelas ruas de negros
em busca de uma dose feroz, gingões
de angélicas cabeças ardendo pelo velho contacto celeste com
o dínamo estelar na maquinaria da
noite, que de miséria e andrajos e olhos cavos e alucinados se sentavam
a fumar na
penumbra sobrenatural de quartos de águas frias flutuando pelos cumes das
cidades
contemplando o jazz(...)”
O pintor e poeta Lawrence Ferlinghetti com seu parque de diversões sensacional, o 'Coney Island of the mind' e as Utilidades da Poesia
“Então, para que
serve a poesia nesses nossos dias?
Qual seu uso? Qual sua utilidade? Nesses dias e noites da Era do Capocalipse em que a poesia é o asfalto das estradas dos exércitos noturnos como naquele paraíso de palmeiras no norte da Nicarágua onde promessas são feitas nas plazas e desfeitas nas quebradas ou nos campos verdíssimos da Estação de Armas Navais de Concord”.
Eu já estava em outra órbita
com aqueles caras, a efervescência das cabeças pensantes daqueles malucos me
contaminava quando, pra piorar/melhorar, chegou o Walt Whitman declamando suas
poesias ‘Escuto a América a Cantar’
"Escuto a
América a cantar, as várias canções
que escuto; O dia, ao
que pertence ao dia – De noite,
o grupo de jovens,
robustos, amigáveis,
Cantando, de bocas
abertas,
suas fortes
melodiosas canções."
...e
“Cidade de orgias,
passarelas e gozos!
Cidade em quem vivi e
cantei em seu meio,
que um dia farei
ilustre,
Não os seus pajens –
não são seus tableaux
inconstantes,
seus
espetáculos que me compensam;
Não as suas fileiras
intermináveis de casas –
não os navios nos
cais,
Não suas procissões
nas ruas, nem suas claras janelas,
com suas mercadorias;
Nem dialogar com
pessoas instruídas, ou trazer a minha parte na festa ou banquete;
Não isso – mas,
enquanto passo, Ó, Manhattan! seu relâmpago frequente e ligeiro de olhos
que me oferecem amor,
Que oferecem resposta
ao meu próprio –
estes me compensam;
Amantes, contínuos
amantes, apenas, me compensam.”
A paisagem não entendeu nada, depois se meteu naquela viela estreita das ruas de Londres perto do Hotel Savoy para, sem querer, aparecer na gravação do sensacional clipe da música “Subterranean Homesick Blues” do bardo introspectivo Bob Dylan. O William S. Burroughs que estava em crise de abstinência das drogas tentando se consolar nas bebidas, me disse que estava indo pro México escrever seu Queer e na floresta amazônica, no Peru encontrar a ayahuasca (yagé), ‘o barato absoluto’:
"Não
há intensidade de amor ou sentimento que não envolva o risco de uma dor
incapacitante. É um dever assumir esse risco, para amar e sentir sem defesa ou
reserva.".
"Não
sou queer, estou desencarnado."
"Na
profunda tristeza não há lugar para o sentimentalismo."
E leu para mim um
pequeno trecho das ‘Cartas do Yage’ enviadas para o Allen Ginsberg:
"Ontem
à noite tomei o resto do yage.
Eis
o que aconteceu: O quarto parece sacudir e vibrar.
O
passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante sem
som"
Antes de sumir para a
eternidade me entregou isso:
‘Murmúrios da morte
celestial’ de “Folhas de Relva”
“Murmúrios
da morte celestial sussurrados ouvi,
Conversa
labial da noite, coros sibilantes,
Passos
ascendendo suavemente,
aragens
místicas vogavam amenas e baixo,
Ondulações
de rios invisíveis,
marés
de uma corrente a fluir, sempre a fluir,
(Ou
será o salpicar de lágrimas?
as
ilimitadas águas das lágrimas humanas?)”
Depois seguiria para Abbey
Road junto com muitas celebridades da história posar para capa do álbum psicodelíssimo
e inacreditável Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos mágicos The
Beatles.
Gregory Corso também estava
por lá escrevendo seu próprio epitáfio:
“Espírito é Vida.
Ele flui por entre a
morte de mim
ininterruptamente
como um rio
sem medo de tornar-se
o mar”.
Hunter Thompson estava indo
pra Las Vegas e no meio de medos e delírios encontrar seu conversível vermelho
abarrotado de drogas até as tampas, aqueles chapados eram das outras Terras, de
outros mundos. O John Fante perguntando ao pó qual era a boa de hoje, e junto
dele, lendo para nós o primeiro terço de sua vida de desajustado entre
vagabundos, vagabundagens e reformatórios, estava o Neal Cassady que não teve
tempo de contar como foram os outros terços, tinha encontro marcado com a
overdose que apareceu e o levou com ela de mãos dadas com tudo o mais à beira
dos trilhos lá pelas bandas do México recitando...
“Era uma noite de
fevereiro.
naquele dia, anos
atrás, seu corpo foi encontrado
nos trilhos de uma
via férrea.
naquela noite de
fevereiro,
anos depois, tive uma
visão:
você, com seu jeito
petulante e alegre
aparece em meu
escritório
sem nada entender,
pergunto: o que quer aqui?
você dá uma grande
gargalhada e desaparece.
então, naquela noite
de fevereiro
escrevi o melhor
poema de minha vida,
mas como todos os
melhores poemas
este desapareceu tão
logo surgiu.”
Saindo daquela década do amor e da flor, um balaio coloridamente incrível, seguimos assim ouvindo jazz e entupindo a mente com ácido celebrando a vida como nunca. Entramos na cidade nua da maçã deflorada que nunca dorme do mago da Pop Art Andy Warrol. Depois de uma parada no The Factory no quinto andar na 231 East 47th Street, em Midtown, Manhattan para um deslumbramento de suas incríveis obras: as Sopa Campbell’s, as Marilyns, Triple Elvis, 3 Coke Bottles e outras tantas. Entre eles, Warhol escolheu chamar ‘Warhol Superstars’, que anunciou algum tempo antes de nomear o próximo Superstar, colocando em prática sua famosa frase em que garantiu que
"Todos
teriam seus quinze minutos de fama".
Despertei naquela noite fria enfumaçada observando desmanchado na penumbra de um letreiro de neon ladeado por um par de bêbados e algumas prostitutas, cães sem-dono, mendigos e andarilhos noturnos o Lester Young improvisando alguns acordes jazzísticos sublimes. Como nem tudo são flores, paz e amor nessa terra sem dono, longe de qualquer sonho utópico, estava no meio do fogo cruzado no Vietnã, entrei na selva e avistei uma ‘Raid at Cabanatuan’ dos túneis de Cu Chi, perto da Cidade de Ho Chi Minh, abandonado pelos vietcongs, onde encontrei o Joseph Conrad analisando sua obra 'Coração das Trevas' junto com os senhores Marlon Brando, Francis Copolla e o Robert Duvall. Assim que o Sol nasceu, ao som estridente de ‘Cavalgada das Valquírias' de Richard Wagner, surgiu no meio daquele caos de terror entre bombas e fumaça o Tenente-coronel Bill Kilgore insanamente berrando:
”Adoro
o cheiro de napalm pela manhã”
Achei um lugar ermo numa
praia deserta e paradisíaca, sentei numa pedra e mergulhei em pensamentos que me
transportava suavemente para aquela tão sonhada liberdade de pensar, agir,
brincar e de poder voar como uma gaivota para refletir sobre todas as coisas,
as filosofias, mesmo as vãs filosofias humanas, sobre a vida e sobre o amor,
aquele amor que Richard Back teimava mostrar ao mundo e através daquela
felicidade que o Fernão Capelo há muito estivera procurando e de como eram
frustrantes as limitações de todos os seres soltos perdidos por aí, não se
conformava com tais limitações e pregava a liberdade a qualquer custo, a
qualquer dor. Olhei sem enxergar direito e vi meio embaçado lá ao longe surgir
nas serras das jabuticabas o José Paulo Paes que vinha das taquaras perolizadas
em um cavalo (mas esse era um puro-sangue que havia ganhado), exalava que...
“Poesia é brincar com
palavras como se brinca com bola, papagaio, pião, mas tem também
a chatice e o jacaré,
larga do meu pé deixa
de ser chato!
Se você tem fome,
então vê se come só o meu sapato, e larga do meu pé,e volta pro seu mato,
jacaré”.
Estava tão concentrado nesse
vai e vem matemático de palavras e figuras que levei um baita susto quando
passou por mim que nem um foguete o Manuel Bandeira:
“Adeus, meu
camaradinha, estou com tosse,
trinta e três...
trinta e três... trinta e três...,
fico aqui mais não,
vou-me embora pra Pasárgada,
lá eu sou feliz e tem
o rei de quem sou amigo,
a existência é uma
aventura e a mãe-d’água
vai me contar um
monte de histórias,
poderei andar de
bicicleta e fazer ginástica
e ainda tomar banhos
de mar, e, por fim,
quando estiver
cansado deito na beira do rio
depoisvou pra a cama
que tem a mulher
que vai me contar
histórias”.
Sumiu, desapareceu como fumaça dentro do meu imaginário. Naquela magia que tomou conta de mim quando ouvia Luiz Vaz de Camões, aquele escritor português zarolho, lia sua epopeia maravilhosa narrando as aventuras marítimas do Vasco da Gama pelas Índias, dez cantos com mais de mil estrofes incrivelmente inspirados, uma obra de arte viajante. Emendando na confusão dessa viagem, eu e o Euclides da Cunha embarcamos para Canudos, lá pelos confins dos sertões brasileiros adentro quando ele trabalhava como correspondente de um jornal onde tive o prazer e o privilégio de vivenciar as reportagens mais incríveis nos interiores ricamente surpreendentes desses nossos Brasis. Registros magistralmente relatados com o singelo nome de ‘Os Sertões’ e só. Sentou-se à beira de um lago deserticamente seco observado por um par de urubus famintos, desolados e ossudos, mirando para os céus, disse:
"E o sertão é um
paraíso, e o sertão é um vale fértil,
é um pomar
vastíssimo, sem dono,
o martírio do homem
ali (no sertão),
é o reflexo da
tortura maior,
mais ampla, abrangendo
a economia geral da Vida,
a seca é
inevitável".
Das encruzilhadas daqueles áridos torrões vermelhos longínquos continuei caminhando e como num portal de contraponto invertido entrei nos jardins das veredas que se bifurcam na companhia elementar do mago dos seres imaginários, o fantasioso Jorge Luís Borges, aquele sublime brujo porteño que perambulava às cegas pelos labirintos rumo à biblioteca de Babel em que o universo é equiparado a uma biblioteca eterna, infinita secreta e inútil se inspirando nas ficções manipulando as realidades com seus animais exóticos em sua zoologia fantástica. Percebi que estava muito ocupado com o tempo, a eternidade, o infinito e os 116 monstros bestiais das mitologias religiosas e as valquírias escolhendo mortos que vagueiam por séculos. Atordoado como uma serpente de duas cabeças deixei-o ali e saí correndo por dois caminhos ao mesmo tempo naquela bifurcação irreal e incongruente. Corri muito até alcançar e me pendurar no carro de bombeiro onde estampava o nº 451 que passava zunindo com as sirenes desesperadamente berrantes. No comando estava o mentor das distopias incendiárias, o senhor Ray Bradbury na utopia de salvar os livros dos incrédulos, com ele estava o senhor Granger que me intimou a escolher memorizar entre a Ilíada do Homero e Ulisses do James Joyce, numa sopa de letras monumental, cruel e saborosa fiquei com as duas. Enquanto devorava as obras cheguei à beira mar e avistei o Olavo Bilac que nem percebeu...
“Já era outono, em
frente àquele mar revolto
escancarou as janelas
sobre o jardim calado,
e as águas mirou,
absorto, outono, rodopiando,
as folhas amarelas
rolam, caem,
viuvez, velhice,
desconforto”.
Acenei para ele que me olhou sorrateiramente sem dizer qualquer palavra, mas em sua soturnidade, percebi claramente que estava decepcionado com a 'última flor do lácio inculta e bela', pensei nesse disparate que os nativos de nossa terra estão acometendo com nossa incrível língua portuguesa. No esnobismo disfuncional em uma terra de ignorâncias linguísticas no paradoxo do analfabetismo funcional em que os usuários da negação pátria se acham soberbos isso é uma tristeza. Bem ao longe surgia um belo e interminável navio guiado pelo clarão de algumas estrelas e em um estalo já estava pelas noites cariocas, que outrora fora o quase paraíso e hoje causa olhares deprimentes nos contrastes arquitetônicos e paisagísticos. Naqueles arcos contagiantes visitando os bares da boemia ouvi ecoando suavemente alguns versos algo assim:
“De repente do riso fez-se o pranto,
silencioso e banco como a bruma,
e das bocas unidas fez-se a espuma,
e das mãos espalmadas fez-se o espanto,
de repente, não mais
que de repente”
E assim mais que de repente
nas profundezas desse lindo hino ao amor sentado num banquinho vi o poetinha
junto ao Tom dedilhando no mais doce tom de um piano mágico imaginando
que nada poderia ser imortal, pois são apenas chamas, mas poderia ser
infinito pelo menos enquanto durasse. Encantado flutuante num segundo
cheguei naquela cidade desolada onde estava o homem duplicado, o mitológico
José Saramago que diz que
“Seu coração não é de
ferro,
mas que fizeram-no de
carne,
e sangra todo dia”.
Química
“Sublimemos,
amor. Assim as flores
No jardim
não morreram se o perfume
No cristal
da essência se defende.
Passemos
nós as provas, os ardores:
Não
caldeiam instintos sem o lume
Nem o
secreto aroma que rescende.”
Em sua trajetória singular a
caminho do convento de Mafra, em suas mãos a maior flor do mundo tentando achar
uma saída para o caos e a exploração que os ricos submetem os mais pobres. Qual
sonho esse?! Me contou a história de Jesus Cristo de uma forma bastante
interessante e saiu-se me dizendo
“Gostar é
provavelmente a melhor maneira de ter,
ter deve ser a pior
maneira de gostar’,
então ‘não
tenhamos pressa,
mas não percamos
tempo”.
Não havia ninguém nem nada
que valesse a pena. Era ali mesmo a Paulicéia Desvairada na efervescente semana
de 1922 donde entrei numa biblioteca imensa caminhando e folheando com muita
preguiça as páginas de Macunaíma quando o Mário de Andrade me mostrou alguns
rascunhos que ele resolveu chamar de ‘Amar, verbo intransitivo’, achei o título
meio estranho, mas ele me disse para tomar cuidado, que a maioria das moças que
são lindas e bem tratadas, com três séculos de família, podem também ser burras
como uma porta, mas são um amorzinho - cuidado, cuidado, há perigos na estrada,
há perigo nas esquinas, e, por fim me disse:
“Nos lugares onde têm
tantas saúvas
e nenhuma saúde,
os males são ou serão”.
Nisso chegou o Oswald de
Andrade, o debochado senhor Rei da Vela, trazendo consigo a primeira edição da
Revista de Antropofagia com seu Manifesto Antropófago (Antropofágico) da Poesia
Pau-Brasil indignado com a submissão aos americanos e europeus (que
perdura até hoje, onde São Paulo sonha ser New York:
I
Love ♥ SP
estampam as lembrancinhas
paulistanas). O brasileiríssimo
Oswald propunha a ‘devoração
cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia,
convertendo-as em produto de exportação’, estava acompanhado da
Patrícia Pagu e a Tarsila do Amaral que carregava um desenho disforme de um
homem canibal que ela dizia ser um presente para o Oswald, mas ele já havia se
inspirado no Abaporu para criar seu manifesto. Sentado nas escadas do municipal
na Praça Ramos de Azevedo naquela São Paulo de outrora o poeta Emanuel
Tropicalista de Araçá-azul me disse que vira surgir entre Pan-Américas utópicas
no túmulo do samba curtindo numa boa seus poetas de Campos...que me veio o
anticrítico Augusto despoetizando concretamente assim:
“Eu vivo como um cuco
no relógio.
Não invejo os
pássaros livres.
Se me dão corda,
canto.
Só aos inimigos
Se deseja
Tanto.”
...e depois seu irmão também
concreto Haroldo emendou:
...do nada junto dele o
poeta visual Décio apareceu entre o real e o infinito:
Assim, quando o concreto
rachou, parti com a cabeça rodopiando mais impossível que um novo Quilombo de
Zumbi. Deixei-os ali mesmo e antes de sair por aquela porta barroca entalhada
gigantesca percebi que havia um quadro na parede onde exibia uma paisagem de
belíssimas arquiteturas da ainda intocada e sublime Ucrânia, como uma
fumaça. De súbito, rompendo os laços de família, emergiu a Clarice Lispector
que veio juntar-se a mim, com um olhar lilás quase oriental profundo e triste
me dizendo em um tom espremido meio inaudível que
“Amor é quando é
concedido participar um pouco mais
e o amor não é
prêmio, por isso não envelhece
O adulto é solitário
e triste
e a criança tem a
fantasia (solta)”
A Clarice estava convicta que iria encontrar sua hora da estrela e a tão sonhada e inatingível felicidade clandestina, desejei-lhe sorte e disse-lhe que sempre haverá um sopro de vida. Nesse ainda verão de 1922, assim deixei a garoa da Pauliceia mais desvairada que nunca. Confabulando com James Truslow Adams, em 1931, que pregava que "a vida deveria ser melhor e mais rica e mais completa para todos, com oportunidades para todos baseado em suas habilidades ou conquistas", independentemente de sua classe social ou circunstâncias do nascimento. Presenciei assim aquele ‘sonho americano’ (American Dream) enraizado na Declaração da Independência dos Estados Unidos, que proclamou que "todos os homens são criados iguais" com direito a "vida, liberdade, propriedade e a busca pela felicidade" se aflorando em contraste com a proibição da venda de bebidas alcoólicas assim disseminando a explosão do crime organizado, emergia a era dos gângsteres e Al Capone reinava soberano deixando os tecnocratas do fisco em pânico. Uma época dourada de requintes históricos que logo em seguida eclodiu a crise de 1929, o crash daquela quinta-feira negra que abalou todo o mundo, talvez o pêndulo do mundo nunca mais tenha se equilibrado. Aquilo tudo foi desconstruído magistralmente por F. Scott Fitzgerald, que apesar de nutrir uma idolatria pela classe rica e suas festas em mansões, não se conformava com o materialismo sem limites e a falta de moral que traziam consigo uma certa decadência, era o auge dos bilionários, incluindo um tal Jay Gatsby dentre tantos outros gatsbys dessas ostentações desmedidas e vazias. Virando dolorosamente a página, no retrato árido de um povo grotesco, sofrido no contraste dos nomes pomposos onde o cão da família se faz estrela, a estiagem que transforma a terra em deserto com estrias medonhas, o sofrimento é fatalmente grudado como tatuagem na vida da prole do Fabiano que tem como companheira a Sinhá Vitória, os meninos sem nome, o 'mais velho' e o 'mais novo', a cadela Baleia e o papagaio que são mais importantes que a própria vida e sobrevivência daqueles miseráveis seres. O senhor Graciliano Ramos me contou que tentou retratar os retirantes do sertão nordestino na crueza da realidade e não viveu pra ver sua obra de memórias que escreveu enquanto estava encarcerado na companhia das mais sórdidas figuras humanas por conta da Intentona Comunista, (a mesma que os contemporâneos com cerebelos em decomposição de pijamas cafonas e tocas ridículas torcerão seus narizes ao ouvir essas palavras sem nem mesmo saber interpretá-las) presenciou a gélida e carrancuda Gestapo carregar consigo a Olga Benário do KPD alemão onde nem mesmo seu marido, o engajado e influente Luiz Carlos Prestes, conseguiu evitar que ela fosse deportada para a Alemanha onde ficou até sua execução na câmara de gás após terminar de amamentar sua filha. Uma silhueta engraçada apareceu e sussurrou-me que não precisava apressar-me com essa minha história, que se não haveria de ter pressas, pois,
“Quando se vê, já é
sexta-feira,
quando se vê, já é
natal,
quando se vê, já
terminou o ano”
Era mais uma intromissão do senhor Quintana. Obedeci, não me apressei. Então, desviei meus pensamentos e fui parar no reino podre da Dinamarca observando o cenário da tragédia de Hamlet, ali estava Sir William Shakespeare que tenta me convencer das questões do que é ser ou não ser em um mundo onde choramos ao nascer porque teremos que viver em um grande cenário de dementes (...e assim estamos). Quando passei pelas grandes muralhas andinas, que dizem ser os confins da Terra, mas é também o fim do mundo, confesso que vivi umas das mais incríveis aventuras, estive hospedado na La Sebastiana, em Valparaíso, berço do ditador asqueroso Ramón Pinochet e portal dos terremotos e tsunamis onde as placas anunciam o horror. Pablo, O Poeta do Amor, não estava, dizem tê-lo visto em Santiago na La Chascona em companhia da descabelada Matilde, já ouvi dizer que fora para a falsa e mágica Isla Negra escrever o Canto Geral, assim, Mario, o carteiro poderia encontrar o poeta na mais sombria paisagem da ilha na Itália. O Neruda é assim mesmo, inconstante e genial.
“Tu
eras também uma pequena folha
que
tremia no meu peito.
O vento
da vida pôs-te ali.
A
princípio não te vi:
não
soube que ias comigo,
até que
as tuas raízes
atravessaram
o meu peito,
se
uniram aos fios do meu sangue,
falaram
pela minha boca,
floresceram
comigo.”
Conversando com o genial
filósofo alemão Arthur Schopenhauer, ele me alertou sobre a arrogância dos
humanos e disparou:
"Nunca confunda
conhecimento com sabedoria.
Você pode ter um
doutorado
e mesmo assim ser um
idiota"
Caminhando nas terras mais
que secas onde o sol estrala perpétuo e as águas são preciosas ou trágicas, eu,
João Cabral de Mello Neto, o Severino e o severino
-> Severino, que
pode ser só um nome,
mas é também uma
condição de vida,
vida que se pode
chamar de morte,
o Severino que não
tem outro de pia
e me diz que é santo
de romaria
e que são muitos os
severinos
tudo igual na mesma
vida,
na mesma cabeça
grande
que quase não se
equilibra,
com sangue de pouca
tinta nos ventres
das mães de pernas
finas,
aquele Severino de
Maria. Mas qual Maria?
Têm as Marias de
tantos outros,
o Severino de Maria
do finado Zacarias,
o coronel, no
contraponto da sua miudeza
ele ainda se achou
pouco, então,
como existem muitos
severinos de mães Marias, ficou assim:
é Severino de Maria
do Zacarias vivendo
lá nas serras magras
e ossudas da Costela
nos limites dos confins, percorremos o sertão
para sabermos da vida e da morte,
vimos as covas rasas,
os defuntos parcos
e as poucas coisas
que lhe couberam
na vida e na morte,
que os severinos
são iguais a tudo na
vida e morrem
de morte igual, a
mesma morte que
se morre por qualquer
motivo,
de emboscada antes
dos vinte,
de velhice aos trinta
ou de fome um pouco
por dia,
é a morte severina,
entendemos
que assim é
a vida e a morte
Severina. <-
Do cenário repentista dos cordéis, lagartixas e mandacarus dos agrestes virei mais uma vez a página dos contrastes absurdos que Deus nos presenteou e já estava em um Café na polvorosa Argel onde ao fundo o noturno Robert Smith cantarolava ‘Standing on a beach’ na inspiração da incompreendida ‘Killing an arab’ pelo mundo de cabeças não-pensantes, fiquei na companhia do senhor Albert Camus, um estrangeiro que me alertava sobre as pestes e os estados de sítio que acometem a humanidade, segundo sua teoria, estaremos sempre em estado de sítio em batalhas com os homens revoltados que ele classifica como avesso sem o direito a atormentar os cidadãos de bem, diante desse cenário soturno quase escuro, em uma completa dissonância, na praia, ao longe, observamos um homem, talvez um cidadão de França ou do Mediterrâneo, quem sabe aquele não seria o tal cidadão de bem o qual falávamos, estava em luta com o que parecia ser um árabe, não demos importância àquilo, decidimos que algumas pessoas prezam por uma morte feliz. Ainda na hexagonal França do século XIX, passeando pelos jardins de Luxemburgo, Victor Hugo me apresentava as misérias daquela época na Batalha de Waterloo e os grandes motins com sua população de miseráveis, entre desajustados e ladrões, figuras emblemáticas como Cosette, Fantini, Marius, o Bispo de Digne, Jean Valjean, o inspetor Javert e muitos mais em meio àquelas filosofias políticas, as desigualdades sociais da sociedade francesa daquele século, o panorama socioeconômico da população mais pobre que só pioraram até os dias de hoje. Na minha cabeça que se transformara em um extenso livro de história, bem ali pertinho, nos países baixos, passando pela Holanda completamente tomada pelos nazistas em plena Segunda Guerra (como disse, o segundo importante erro da humanidade). Cheguei naquele prédio onde se amontoavam em um esconderijo que ficava nos cômodos superiores fechados do anexo nos fundos da empresa em que seu pai era sócio, um cubículo, a Anne Frank, seus pais e sua irmã e mais um punhado de pessoas assustadas e apavoradas, ela me disse que tinha apenas 13 anos e que estava escrevendo algumas coisas que talvez fossem interessantes, mas também achava que ninguém se importaria pelas ideias de uma menininha que nem sabia brincar de boneca. Perguntei como se sentia por estar confinada em uma sala onde não se podia nem olhar pela janela para ver o sol e se não tinha medo de que alguém visse seu diário e pudesse puni-la por isso, mas ela logo me deu uma resposta assustadoramente incrível, me disse que sim, era um risco grande, que poderiam levar seu diário e não entenderem, mas isso não teria problemas, pois, ninguém nunca poderá colocar paredes, grades ou trancas na sua mente. Depois soube que foram para campos de concentração e por lá ficaram, mas seus escritos sobreviveram ao holocausto e podemos hoje saber com detalhes suas angústias, medos e até alegrias naqueles anos entre 1942 e 1944 quando o mundo parou para assistir a um espetáculo do mais autêntico horror, mas também em que a paz jamais fora tão sonhada. Fechei os olhos tentando entender os corações humanos e suas armadilhas carregadas de rancores e ódios levando a ações terríveis que não fazem o menor sentido e quando olhamos o panorama hoje, vemos esses senhores ainda insistem em acabar com tudo. Quando voltei à realidade, entrei em um beco escuro, estreito, sujo e triste de Goiás com uma paisagem ausente em meio à uma savana acidentada e vi que na parede de um velho casarão estava pregado um panfleto com algumas palavras já meio apagadas com o tempo:
Anna
Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, na verdade
Cora
Coralina
"Mulher da Vida,
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as
latitudes.
Ela vem do fundo
imemorial das idades
e carrega a carga
pesada
dos mais torpes
sinônimos,
apelidos e ápodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.
Distraidamente esbarrei numa pessoa franzina e silenciosa sentada bem ao meu lado, Cora Coralina, uma mulher como outra qualquer que nasceu longe de todos os lugares vinda do século passado trazendo consigo muitas idades, olhou atentamente nas palmas de minhas mãos, leu as linhas da minha vida em pensamento, linhas cruzadas, sinuosas, que pareciam interferir no meu destino, fiquei curioso, ela só me fitou misteriosamente, mas nem quis saber, saímos caminhando juntos pela vida até que algum destino nos separasse. Quando despertei ela havia sumido e me vi navegando na canoa com o Santiago, aquele destemido velho do mar que fixara sua vida naquele monstruoso peixe cruel. Assim que chegamos em terra tentei conversar com o bom, velho e rabugento Ernest Hemingway, estava encostado em um rochedo com a camisa aberta, de bermuda e descalço segurando uma garrafa de vodca entornando generosos goles com as águas do mar até a cintura, ele que tinha acabado de se safar daquela geração perdida, que se encheu das touradas madrileñas, das festas de Paris, de tudo e de todos e muito menos quis saber por quem dobram os sinos, catou seu fuzil de caça e viajou para a ilha de Cuba na imitação de seu pai na partida, nunca mais consegui falar com ele. Fui parar na República Dominicana, Mario Vargas Lhosa que argumentava sobre uma tal ‘La fiesta del chivo’, conversava com Urania Cabral que havia voltado para casa após longa ausência, ele queria saber mais sobre o que tinha acontecido em 1961 com o presidente-ditador Rafael Trujillo, El Trujillato, através do olhar da bizarra juventude dela em relação ao seu pai e o assassinato do presidente pelos seus fiéis e leais soldados. Foi um retrato caleidoscópico do poder ditatorial, seus efeitos psicológicos e seu impacto durante anos, a natureza do poder e a corrupção e sua relação com o machismo e a perversidade sexual numa sociedade rigidamente hierárquica com papéis de gênero rígidos, a coisa era desumanamente cruel como uma autêntica 'Festa do bode', um lembrete das atrocidades da ditadura e os perigos do poder absoluto para as gerações. Falamos um pouco sobre o que o mundo passa atualmente e nos despedimos sem nenhuma esperança. Depois desse disparate insano encontrei, enfim, outro português, aquele fingidor que é também poeta e sente a dor da Pessoa e escreve divinamente girando nas rodas de sua solidão para assim na razão em um comboio de cordas poder chamar de coração. Se esquivou mais uma vez e quando finalmente apareceu já não tinha o mesmo nome, mas concordo com ele numa coisa: todas as cartas de amor são ridículas e se navegar é preciso, viver também é. Entrei numa tabacaria centenária na Espanha e encontrei o Miguel de Cervantes que por acaso estava no século certo, disse-me hola, estoy atrasado e saiu a galope no lombo do pangaré Rocinante do Dom Quixote de La Mancha grudadinho com seu fiel escudeiro Sancho Pança, que, visionariamente estavam no século errado e apareceram do nada contando um monte de histórias sem sentido algum enquanto el niño Jorge Luis Borges entrou de gaiato na história como um assaltante literal inescrupuloso rabiscando sua primeira obra ‘La visera fatal’ inspirado naquele mesmo Dom Quixote. Eu me embaralhava na confusão das lorotas e dos séculos distintos. Entrei em minha mente recordando a casa dos mortos quando de súbito no subterrâneo tomando notas do mundo já fui ter com o Dostoiévski que estava no paredão de fuzilamento, insistia na imitação dos grandes heróis da humanidade que acreditava ser sensato cometer alguns crimes sem punição (parecia fazer todo sentido), no enredo dos humilhados e os ofendidos como castigo foi condenado, se safou por um triz, saímos correndo e fomos encontrar seus irmãos Karamazov nas colinas russas, fiquei curioso para saber mais sobre a imensidão daquelas terras de vales e planícies dos montes Urais, é certo que no planeta Terra não tem maiores. Quando frequentava as vilas russas em uma noite fria, gelada, numa taberna entornando doses generosas de run com alguns pastores de ovelhas sentou-se à minha mesa um senhor de barba longa e branca, taciturno com um sobretudo mais preto que aquela noite, se apresentou com o nome de Lev, ou Liev Tosltói me explicando que na era napoleônica pode-se muito bem entender a história da Rússia que se confunde com a guerra e também se mistura com a paz, fiquei por ali a noite toda ouvindo aquela narrativa tão sublime quanto sobrenatural sobre o calvário da Anna Karenina que tinha todo aquele império contra ela por causa de suas atitudes adúlteras, mas na incompreensão de que era apenas a busca pela felicidade. Como sabemos, a felicidade é muito cara e poderá causar desconfortos. Também na mesa estavam John Steinbeck, conversando com o George e o Lennie, eles formavam um par estranho: George era pequeno e esperto; Lennie um brutamontes com a mente de uma criança, eles estavam fugindo de uma fazenda; os proprietários queriam linchar Lennie porque ele havia desrespeitado uma mulher. Lennie, o grandalhão, sem consciência de seus atos, gostava de pegar em suas mãos tudo que achava bonito e agradável. O John sussurrava para os dois alguma coisa sobre os ratos e os homens:
“Os projetos melhor
elaborados, sejam de camundongos ou sejam de homens, fracassam muitas vezes
e nos fornecem só
tristeza e sofrimento,
em vez do prêmio
prometido"
Na manhã seguinte atravessando aqueles montes íngremes e gelados da Eurásia, entrei no meio das catacumbas sombrias onde bem ao meu lado vejo o estranho espectral e quase irreal senhor Edgar Alan Poe conversando alguma coisa bem baixinho com o ser iluminado Stephen King, ambos escorados em um muro perto de um barril de amontillado onde tinha um desconfiado gato preto desmanchado a seus pés e um corvo encolhido em seu ombro gélido e horripilante, reparei que atrás daquele muro sinistro havia um poço com um pêndulo em um balançar ininterrupto irritantemente simétrico que soava como uma tortura cerebral e parecia sem fim naquele cilindro imensamente escuro. Em meio aos desfiladeiros daquelas montanhas mágicas, encontrei também o senhor Thomas Mann, um homem seriíssimo que, para fugir de algum tipo de morte em Veneza havia subido até lá para se esquecer do mundo das planícies e encontrar inspiração para poder viver com dignidade naquele sanatório de ilusões onde, juntamente com o Doutor Fausto debatemos sobre as cabeças trocadas e os anos loucos e todos os assuntos que ficaram espalhados e perdidos lá embaixo o qual chamamos de calabouço da Terra, um quebra-cabeças impossível de concluir. Absorto com meus pensamentos tentando entender a cabeça complexa daquele alemão, lógico que não consegui, a coisa só piorou. Nisso o sarcástico, irônico e pitoresco Ariano Suassuna que logo foi me avisando que não troca seu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém e que se não concordasse com ele eu estaria equivocado. Me chamou no canto pra tomar umas cagibrinas e ler sua obra máxima com elementos da literatura de cordel tipicamente nordestina, o Auto da Compadecida, que utiliza elementos do barroco católico e também a comédia com uma combinação da cultura popular e tradição religiosa, nisso chegaram um palhaço, que entrava e saia contanto a história no modelo pantomina se interagindo com o público, o Chicó e o João Grilo pulando feito uns doidos, o Padre João, o Bispo e o Frade tentando explicar para os religiosos que ficaram meio ressabiados e indignados, mas não entenderam que era apenas folclore onde a Compadecida se confunde com a Nossa Senhora e o Manuel se acha o próprio Jesus Cristo, mas que nem o Diabo escapou na pele do Encourado, uma sacada genial e polêmica, mas um senhora obra de arte. E por fim o escroto e ignorante Major Antonio Moraes que detém o poder para intimidar todo mundo, esse tipo de gente gosta de meter a fuça em qualquer história, estão espalhados por toda parte como pragas desde que o mundo se fez de mundo. Continuei caminhando entre aquelas montanhas que pareciam me observar, entrei sem perceber em um desfiladeiro labiríntico rochoso muito estreito e úmido, quando subi no cume avistei lá bem ao longe como se não existisse um fim uma construção suntuosa. No caminho constatei, pelo estilo arquitetônico, que estava no século XIV e por lá o Umberto Eco junto de seu assessor, o noviço Adso de Melk, me disse que estava seguindo viagem para aquele mosteiro beneditino medieval, uma abadia colossal, acompanhar um tal frade franciscano Guilherme de Baskerville, um sujeito metido a Sherlock Holmes que estava envolvido em uma investigação de heresias e assassinatos de sete monges em sete dias em circunstâncias no mínimo insólitas, uma aventura quixotesca, me disse que poderia ir com eles, mas me alertou que não esboçasse nenhum sorriso, ‘aqui, não se ri’. Me despedi do senhor Eco que seguia para o Cemitério de Praga não se sabe fazer o quê. Acabei me perdendo por aqueles cômodos obscuros como um labirinto e me vi em uma masmorra de pedras cheia de ossadas e objetos de tortura onde havia uma porta muito espessa, atravessei-a e cai em uma imensa biblioteca onde havia vários monges estranhíssimos folheando atentamente alguns livros ainda mais estranhos de conteúdo apócrifos e me encarando enigmaticamente, aquele cenário lembrava uma obra do pintor gótico italiano Giotto de Bondone, gelei minha alma, minhas pernas bambearam, meu coração veio até minha boca e se dividiu em partes, suando frio, tentei, em vão, fugir. Mas quando entrei em um corredor assustadoramente estreito me deparei com a Cornelia Funke e o Guillermo del Toro ajudando a garotinha Ophelia, a princesinha encarnada e sua mãe que estavam procurando o Fauno e os outros seres fabulosos escondidos naquele labirinto fantasmagórico, precisavam de proteção para chegar até o temido capitão Vidal e realizar suas três tarefas e retornar para seu verdadeiro lar, o submundo. Já estava conformado que nunca mais sairia daquele lugar, mas achei uma lanterna de querosene acesa e consegui finalmente sair, e como uma mágica me teleguiei pro outro lado do mundo e me aventurei pelas veredas dos grandes sertões, parei naquele empório de securas no meio do nada para tirar o pó da estrada, tomar uns tragos e ter um dedo de prosa com o fabuloso Guimarães Rosa, como uma colagem de letras ele reinventou as palavras genialmente ali mesmo naquela hora, foi épico aquilo, fiquei abismado, travado sem sair do lugar, uma riqueza inacreditável de verbetes e frases. Vagueei por uns bons cem anos na mais completa solidão até chegar no povoado de Macondo, na Colômbia onde me encontrei com o Gabriel García Márquez, o cronista das mortes que se anunciarão e também o aldeão José Arcadio Buendia que estava mais uma vez sendo enganado pelo cigano Melquíades sob o olhar reprobatório de sua esposa Úrsula. O Gabo, antes de ir-se me disse:
"Descobri
que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada
palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas,
pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a
desordem da minha natureza."
Quando caia a tarde, nós
dois encontramos e ficamos ouvindo atentamente o senhor Zygmunt Bauman, um
homem com a mente em derretimento na oratória sem êxito sobre a liquidez humana
onde as relações estão escorrendo pelos vãos dos dedos em que não há razão nem
lógica, um mero acúmulo de experiências em um reflexo da pós-modernidade,
o disparate comportamental da humanidade que muitos profetas, do caos ou não,
já anunciavam enquanto o mundo com as engrenagens em pandarecos ainda insistia
em girar e eu tentava convencê-lo a acreditar que a soma das muitas
coisas que realmente importam estão sendo derramadas e, como líquido,
evaporadas, algo como o nadsat da leiteria alucinógena da
laranja mecânica do Stanley Kubrick. Deixei-os ali refletindo e de
passagem pela Andaluzia, em conversa com o García Lorca em uma banca de jornais
e revistas, enquanto folheava um livrinho com poemas da Florbela Espanca...
“Eu
...
Eu sou a que no mundo
anda perdida,
Eu sou a que na vida
não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e
desta sorte
Sou a crucificada ...
a dolorida ...
Sombra de névoa tênue
e esvaecida,
E que o destino
amargo, triste e forte,
Impele brutalmente
para a morte!
Alma de luto sempre
incompreendida!...
Sou aquela que passa
e ninguém vê...
Sou a que chamam
triste sem o ser...
Sou a que chora sem
saber porquê...
Sou talvez a visão
que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao
mundo pra me ver,
E que nunca na vida
me encontrou!
O García Lorca me disse que
aquela 'Geração de 27' com as artes e as poesias encheram o mundo de encantos,
pude constatar que as Espanhas sangraram o mundo com os maiores artistas dos
muitos tempos, como aqueles Pablos, os Mirós, os Gaudís e os Dalís, deixando de
lado as brigas entre Espanha e Holanda pelos direitos do mar...O Federico assim
me relatou:
“Assassinado pelo
céu,
entre as formas que
vão até a serpente
e as formas que
buscam o cristal,
deixarei crescer meus
cabelos.
Com a árvore de cotos
que não canta
e o menino com o
branco rosto de ovo.
Com os animaizinhos
de cabeça rota
e a água esfarrapada
dos pés secos.
Com tudo o que tem
cansaço surdo-mudo
e borboleta afogada
no tinteiro.
Tropeçando com meu
rosto diferente de cada dia.
Assassinado pelo céu!”
Mas por não corresponder aos critérios
truculentos das masculinidades dos fuziladores da 'Guerra Civil
Espanhola", não teve a mesma sorte que o Dostoiévisky, e antes de ser
executado cruelmente no paredão, sem piedade nem perdão me recitou um poema da
Florbela Espanca:
“A minha Dor é um
convento ideal
Cheio de claustros,
sombras, arcarias
Aonde a pedra em
convulsões sombrias
Tem linhas dum
requinte escultural.
Os sinos têm dobres
de agonias
Ao gemer, comovidos,
o seu mal...
E todos têm sons de
funeral
Ao bater horas, no
correr dos dias...”
Em mais uma decepção total com o ser humano fui ter-me com o sarcástico Lima Barreto, estávamos pelas pradarias dos Bruzundangas e de repente esbarramos em crânios cônicos e ocos como num liquidificador misturando o passado com o presente, mas nenhum futuro, o mundo estava estagnado e assim está em uma constante mudança desordenada, nenhum rumo. Baseado nisso, eu e o orbital Carl Sagan, que saíra das eras espaciais, mas ainda continuava em órbita, naquela simbiose quase perfeita nos sentamos no parapeito da janela de um hotel de frente para o infindável Central Park e ficamos horas olhando pensativos para o horizonte cósmico sem dizer palavra imaginando a origem de tudo, a morte do Sol, as incríveis nebulosas, as galáxias, a exuberante explosão das estrelas na supernova e as missões espaciais e nos questionando 'que mundo é esse que não ousa pensar', o bom grado que nos foi dado de presente, o estragamos e agora não queremos mais. Voltei para 1964, em uma conversa com o físico teórico britânico Peter Higgs, que e contou seus estudos sobre um tal Bóson baseado nos estudos de outro físico, o americano Philip Anderson, logo nos teletransportamos para o século 21, no ano de 2013, onde o senhor Higgs conseguiu expor suas ideias daquela partícula elementar que surgiu após o ‘Big Bang’ para assim explicar a origem da massa de outras partículas, o acelerador de partículas. Ficamos ali conversando por longos dias sobre esse modelo hipotético padrão e as diferenças dessas partículas elementares, os ‘férminons’ e os ‘bósons’ do bosão. Fascinante! Nisso, passou por nós uma nuvem negra e pesada em um rodopio inesperado, imediatamente estava no meio do deserto em uma tempestade de poeira observando aqueles desenhos estranhos flutuando e um homem correndo para recolhê-los, não acreditei que pudesse existir algo tão emblemático, havia um pequeno menino com uma estranha roupa de príncipe sentado em alguma coisa como um asteroide com um desenho de uma rosa vermelha no meio do nada naquela noite cheia de estrelas, o homem se chamava Antoine, um aviador francês perdido meio desolado que filosofava para ninguém com suas palavras rodopiando e se perdendo com os ventos, apenas aquele principezinho prestava atenção, ele chegou até mim e disse:
“No mundo que se faz
deserto,
temos sede de
encontrar um amigo”,
O senhor pode ser meu amigo.
“Todas as pessoas
grandes foram um dia crianças –
mas poucas se lembram
disso”.
Sai caminhando e daqueles
desenhos flutuantes um deles me grudou bem no meio da cara, estava escrito com
letras garranchadas quase ilegíveis alguma coisa assim talvez:
“Quando se vê
perdemos o amor da nossa vida,
quando se vê passaram
50 anos,
agora é tarde demais
para ser reprovado”
De novo o senhor Quintana me aloprando e me alertando. Fiquei um tanto enjoado e aquela noite ficou tão escura quanto suja quando magicamente surgiu das docas com uma garrafa de um aguardente de qualidade ordinária bebendo e fumando com alguns marginais e umas tantas prostitutas o poeta maldito Plínio Marcos, figurinha difícil fácil por ali, pornográfico e subvertido, trocamos umas ideias e como uma navalha que corta a carne quando sutilmente o Plínio partiu para entender a jornada de um imbecil até o entendimento enquanto os navios atracavam naquele cais do caos e eu sumi no vácuo pelos becos estreitos e imundos. Cheguei a uma estação de trens quase vazia, pessoas aqui e acolá, no guichê o saltimbanco quase lunático Groucho Marx com seu caminhar primatamente peculiar fazendo todo mundo de besta e dizendo que estava de partida para o oeste (Go West!). Hilariante, foi só um relance da história da comédia maior dos cinemas dos tempos áureos. Como eu seguia para outro rumo, subi no Expresso do Oriente onde o bigodudo e esnobe detetive Poirot me seguia descaradamente, estava procurando a Agatha Christie, contive-o e disse-lhe que a havia visto descendo na última parada dizendo que precisava resolver alguns casos misteriosos de assassinatos. Logo também desci do trem e passeando pelas calçadas olhando para aquele mar azul agitado e sem fim de beleza absurda, avistei bem lá longe e me encantei com a figura frágil e franzina da Cecília Meireles sentada em um banco a poetizar sem precisar de motivo, assim como um passarinho não precisa, sentei-me ao seu lado e ela me disse que se assim o instante existe, mesmo estando alegre ou triste ela poderia cantar se sua vida estivesse completa e poderia deixar esse mar bravo e o céu tranquilo, que naquele momento só queria a solidão e que seu caminho agora era sem paisagens e foi-se embora. Enquanto a seguia com os olhos desaparecendo na névoa, morros e solidões chegou o senhor Machado de Assis, sentou-se ao meu lado no mesmo banco e contou-me a breve história do Brás Cubas, não entendi quase nada, ou nada, complexo demais aquele senhor, disse que para ele somos todos alienistas ou alienados, me convidou a conhecer o Dr. Simão Bacamarte na Casa Verde, uma multidão circulava por lá, parecia ter uma cidade inteira internada ali, todos pareciam ter enlouquecido. Olhamos pela janela e vimos que estava explodindo a Revolta dos Canjicas na vila e aquele barbeiro Porfirio era uma ameaça para nós, um retrato como um resumo do Brasil em qualquer era ou qualquer tempo. Foi daí que me senti observado, quase vigiado, logo percebi a presença hologrâmica bisbilhotesca de George Orwell me alertando que...
“Guerra é paz,
liberdade é
escravidão,
ignorância é força
onde
a massa mantém marca,
a marca mantém a
mídia
e a mídia controla a
massa”
Em 1984
"O Grande Irmão está te
observando"
(The Big Brother is
watching you)
E completou que era para eu entender que o indivíduo é apenas uma célula e me convidando a conhecer seu ‘Gabinete do Ódio’, mas que eu não me preocupasse, só estava esperando o Bola-de-Neve, o porco da fazenda para tramar umas revoluções junto aos outros bichos, está bem meu grande irmão, já nos familiarizamos com esses conceitos de ódio, revoluções e golpes. Disse-lhe que já estava de saída indo procurar pelo apanhador Jerome David Salinger ou apenas JD Salinger que vivia em sua eterna e sábia reclusão, claro que não obtive êxito, dizem tê-lo visto andando pelos campos de centeio tentando consolar Holden Caulfield que tinha acabado de ser expulso da escola, estava à beira de um colapso nervoso e procurava entender um pouco mais a vida e suas armadilhas e, principalmente o uso macabro de seu nome por um canalha assassino que desinteirou barbaramente para a eternidade e sem explicação aqueles 4 meninos iluminados de Liverpool (nem aquela estrela amiga fez a bala parar), o mundo nunca esteve tão triste. Enquanto isso, voltando aos Estados Unidos quando passeava à toa pelas quebradas de Nova Iorque, encontrei o Mark Twain que me convidou para uma missão quase impossível, tentar alcançar o Tom Sawyer, que o Neil Peart se inspirou lindamente, aquele moleque que nunca foi bobo nem nada, garoto esperto e malandro, mas de bom caráter e bom coração, criado às margens do rio Mississipi com o seu irmão mais novo Sid, sua prima Mary e seu melhor amigo o Huckleberry Finn, Tom sempre encontrava uma forma de ludibriar sua tia Polly e deixar de levar uma sova daquelas ou ficar de castigo, sempre fugindo, não conseguiríamos alcançá-lo nem em mil anos – desisti. Ouvi uma voz vindo de uma fresta: 'o senhor tem medo de mim?' - Não, claro que não! Aleguei que o lobo em questão não passava de uma metáfora ou um trocadilho. Virginia, que me contou a história da Senhora Dalloway, aquela inglesinha rica perdida no meio das guerras com o presente contínuo da personagem Clarissa que busca em seus pensamentos e lembranças aqueles pretendentes muitos de sua juventude entre vários traumas, como doenças mentais, depressão, tabus, questões e aquelas neuroses de guerras, saiu sorrateira me dizendo que depois voltaria para me contar outras historinhas interessantes, - está bem! Eu disse. Imediatamente já estava entrando em terras portuguesas onde encontrei outro lusitano, o senhor Eça de Queiroz que estava a conversar de pé de orelha com seu primo, o Basílio, pude ouvir meio de soslaio, se indignava com o padre Amaro que cometera um crime muito grave nas juras de casta da condição em que prometera e escolhera seguir, partira então para o Alentejo. Me perdi e por mero acaso cheguei a um Castelo no estranho e boêmio mundo do inseto-homem de Franz Kafka que acabara de chegar da colônia penal, estava estranho, taciturno, quando conversamos sobre as metamorfoses, concordei com ele sobre a condição humana, disse-me que estava escrevendo umas cartas ao seu pai em um processo acelerado, tinha pressa, mas antes de partir me pediu que queimasse todos os seus escritos, com a cumplicidade de Max Brod, óbvio que não obedeci e seguindo seu raciocínio com seus personagens, assinei apenas K. Nisso encontrei uma criança que me chamou e me passou um recado, disse que uma mulher pediu que me dissesse isso:
“Se me fosse dado um
dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o
relógio, seguiria sempre em frente
e iria jogando pelo
caminho
a casca dourada e
inútil das horas,
seguraria o amorque
está a minha frente
e diria que eu o amo”,
Me veio em mente o senhor Mario, apesar da profundidade das palavras, não me empolguei. Ouvi dizer que o Jorge Amado, aquele bom baiano estava em Ilhéus aguardando minha chegada juntamente com a Zélia Gattai e alguns anarquistas, graças a Deus que tudo correu bem, conhecemos as plantações de cacau e suas inspirações de cravos e canelas, segui pelas intermináveis ruas de árvores de chocolates e mergulhei floresta adentro contemplando as Gabrielas, os cravos e as canelas. Entre árvores imensas e relvas rasteiras fui seguindo meu caminho no estreitamento das letras quando ao meu lado caminhava o Herman Hesse rodando nas estepes com seu lobo suicida que me avistou e me convidou para um baile de máscaras cujo convite estampava:
...E como o poeta
cantou uma vez que
‘De perto ninguém é
normal’,
e eu acredito que de
longe também não.
Já fui entrando e reparei que o esotérico indiano rebelde budista e príncipe entediado Siddartha estava em um canto distraído, meditando ou poderia estar planejando uma viagem celestial em busca da purificação. Depois do baile, de manhã, acordei em um sítio com o barulho infernal de um pica-pau amarelo topetudo e maluco, lá estava o Monteiro Lobato em seu reino encantado escavando a terra para encontrar petróleo, tinha um visconde feito de sabugo de milho, uma boneca encardida de pano e um monte de ‘gente’ esquisita ajudando-o, logo ali pertinho atrás de uma árvore nos observava desconfiada uma bruxa com cara de jacaré, achei aquilo tudo muito estranho, passei rápido, fiz um cumprimento de chapéu e fui-me. Cai por Quinze vezes em Quixadá onde estive com a Raquel de Queiroz, conversamos sobre os dissabores que teve com o bom vaqueiro Chico, o senhor Vicente, aquele criador de gado asqueroso e a professora Conceição, que era culta e feminista, o que aborrecia demais sua avó, aquela Mãe Nácia, depois fomos todos encontrar as três Marias que estavam com a Lygia de Telles e as Meninas ensaiando uma ciranda de pedra. Como convidada ilustre estava por lá a Simone de Beauvoir, que havia errado o caminho e caído por acidente no planeta Terra, ela tentava nos explicar as complicadas nuances filosóficas do segundo sexo, mas a imaginação do seu parceiro, o filosofo existencialista Jean-Paul Sartre também nos comoveu, mesmo que as náuseas que acumulamos com as trapaças da vida não nos intimidam e que podemos acreditar que o ser pode ser tudo, mas também pode ser o nada e todas as idades podem sim ter razões em algum caminho que leva à liberdade, assim nem precisaremos de muros para lamentações nem sursis. Estava lá pelo século XVI, por volta de 1513, em Florença, na Itália e avistei o Maquiavel com sua obra máxima 'O Príncipe'. Pergunteia ele que livro era aquele que carregava. ‘Acabei de escrever e como Dante diz que não se faz ciência sem registrar o que se aprende, eu tenho anotado tudo nas conversas que me parece essencial, e compus um pequeno livro chamado "De Principatus", onde investigo profundamente o quanto posso cogitar desse assunto, debatendo o que é um principado, que tipos de principado existem, como são conquistados, mantidos, e como se perdem’. Fiquei bastante curioso e disse a ele o quanto estava confuso como comportamento humano. Ele me disse: ‘Meu rapaz, existe uma ilusão de que pessoas tóxicas vão despertar, que manipuladores vão enxergar o efeito das próprias ações, que os impulsivos vão desenvolver controle. Não existe qualquer romantismo, essas pessoas são imutáveis. Temos o 'reativo crônico', são pessoas impulsivas, não veem diferença entre o sentir e agir, qualquer emoção vira ação imediata, raiva vira agressão, insegurança vira ataque, frustração vira sabotagem e a mudança será impossível, pois essas pessoas não têm observação de si mesmas e sua intensidade emocional nunca muda. Não é impossível, mas improvável. O segundo caso é o 'dependente de validação', não têm opinião própria, sempre precisarão da aprovação de outras, são pessoas que mudam o comportamento conforme o ambiente em que estão, por necessidade psicológica, não conseguem criar um padrão, se moldam às pessoas ao seu redor, não têm identidade fixa. E temos o 'oportunista de curto prazo', só veem vantagem imediata, não têm visão de futuro, se não traz benefício no momento, elas não se movem, são pessoas limitadas, elas desaparecem da sua vida quando não há vantagens. Para elas o mundo é agora, 'depois' não existe. Esses três tipos de pessoas não são categorias morais, são estruturais, o reativo crônico não escolhe ser impulsivo, o dependente de validação não escolhe ter vazio interno e o oportunista não escolhe ser limitado a curto prazo. São configurações psicológicas e configuração não muda com discurso nem com exemplo, e eu sei perfeitamente disso, por isso não me atrevo a mudar as pessoas, mas sim entendê-las, enquanto vocês esperam mudança, eu espero revelação e sempre funciona, assim você vai perceber que não se muda o imutável. Existe diferença em ajudar alguém a evoluir e criar estrutura onde não existe, é quase impossível. Você pode ensinar técnica e estratégia, mas não pode ensinar controle emocional a quem não desenvolveu o espaço interno para isso, não pode ensinar identidade a quem não tem uma base, não pode ensinar visão de longo prazo a quem só processa presente. Isso não significa desistir de pessoas, só não perco meu tempo com pessoas difíceis. Eu as identifico, categorizo e sigo sem culpa, sem frustração, sem a ilusão de que todo mundo pode ser salvo, nem todo mundo pode, e isso não me tornou frio, mas lúcido. O reativo explodiu diversas vezes e vai explodir de novo, o dependente te apoiou hoje e vai te trair amanhã se a plateia mudar, o oportunista sumiu quando você precisou, vai sumir de novo, e isso não é previsão, é padrão, e padrão é a única profecia confiável sobre comportamento humano e só será preciso ajustar e deixar essas pessoas no lugar certo, longe de suas dificuldades. Por fim, entender não é julgar é mapear o padrão e identificar a estrutura e agir de acordo com a realidade, não como que você gostaria que fosse real. A realidade não negocia, ela só revela e você sofrerá menos se aceitar isso o quanto antes. Olhos d'água, vozes silenciadas pelo racismo, pela intolerância, miseráveis condições econômicas e as degradações trabalhistas a que são obrigados a enfrentar, homens, crianças, empregadas domésticas e, principalmente, as mulheres, as mulheres negras, as mães, as mulheres mulheres, todas elas, são as mulheres lutadoras que tomam conta de tudo, trabalho, maridos, filhos e da própria vida e ficam expostas às violência com mortes prematuras, a Conceição Evaristo me chamou de lado e com os olhos rasos d'água me disse: 'a gente combinamos de não morrer', rios caudalosos de minha mãe que 'nesse rio, além de miséria, correm águas de alegria e afeto', então, será preciso ouvir as favelas na figura de Ayoluwa, “a alegria do nosso povo”, para que a comunidade volte a ter esperança, mas sem fechar os olhos. Pensativo e descrente com a situação da humanidade que está perdida e não há perspectiva de um dia se encontrar me reencontrei com James Joyce que viajou pelas odisseias se infiltrando na mente do Odisseu do Homero para contar suas viagens históricas de Tróia nas ilhas de Ítaca pelo mundo helênico da rainha Penélope no microcosmo humano de 1904 por Dublin, sendo Leopold Bloom o grande herói trágico, um judeu irlandês, na visão de James Joyce um ‘Ulisses moderno’ ou ‘um qualquer’, fraco e forte, cauteloso e precipitado, herói e covarde, englobando os múltiplos aspectos de cada ser humano e de toda a humanidade, disse à ele que estava com a missão de memorizar sua obra máxima, era uma questão de ser ou não ser na vastidão do universo literário fabuloso, tarefa árdua, mas deleitante e compensadora. Aquele outro russo, o Vladimir Nobokov andou me dizendo que a Lolita podia ser a ninfeta dos sonhos de alguns, mas também o tormento de muitos, o tal professor Humbert que se fez padrasto e amante protagoniza o controverso tema, Dolores contava apenas 12 anos, mais novinha ainda que a perseguida Annie Frank, ele justificou com a história de que a Anabell tinha 13 e já estava na idade de se relacionar, mas ela morreu de tifo, que disparate. Fechei o livro e quase interrompi minha viagem, estava estafado, cansado e um tanto descrente do homem enquanto ser inteligente, mas voltei e me animei quando vi no meio a um jardim muito florido balançando-se suavemente a Jane Austin segurando um cesto de vime com seu amontoado de guloseimas nas razões, orgulhos, preconceitos, amores, amizades, persuasão e muita sensibilidade femininas, as mulheres se deleitam com tanta dedicação. Zap!!! De novo, de súbito sem nenhuma filosofia o senhor dos mistérios me espetou assim:
“Só mais uma coisa,
meu nobre, não deixe de fazer algo
de que gosta devido à
falta de tempo, não deixe
de ter pessoas ao seu
lado por puro medo de ser feliz,
a única falta que
terá será a desse tempo que,
infelizmente, nunca
mais voltará”,
Dito isso, olhou-me nos
olhos e disse que já bastava e que estava partindo e me pediu que refletisse
sobre essas coisas todas aí. Emudeci e pensei no tempo, os tempos, todos os
tempos, aqueles passados, tempos idos, aqui no presente, nos cotidianos, tempos
que se foram e que não voltam nunca mais e além dos futuros e as frustrações
que nos acometem. Conclui que só existem passado e presente e que o futuro nada
mais é que o presente que imediatamente já se torna passado. Nessa distração
quase fui atropelado quando naquela carruagem suntuosíssima passou rumo à
Paris, Marcel Proust olhou pela janela e me lembrou que vivemos sempre em
busca, buscamos a tudo, a todo o tempo, o amor perdido, a riqueza almejada, o
respeito necessário, e, principalmente a felicidade, tão cara quanto todo o
tesouro da humanidade.
E o
que procuramos verdadeiramente?
Não
sabemos!
Talvez
estejamos sempre
58
Tentei sair desse compêndio emaranhado abstrato de concretos e frases e palavras e letras para enfim relaxar. Óbvio que não consegui, agora mesmo estou em um boteco ordinário nos subúrbios de Los Angeles decorado com fotos pornográficas de péssimo gosto bebendo e conversando com aquele carteiro visionário, um velho safado, maldito e grande filho da puta Charles Bukowski, esse cara é único. Estávamos, observando e viajando com outros tantos malucos geniais nos espaços e nos tempos na fluição incessante das letras mágicas, disse a ele que nessa teia cerebral esculpida com as mais incríveis histórias desses seres maravilhosos e suas mentiras deslavadas, descaradas e sensacionais, sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria ou biblioteca onde o prazer de beber, se embriagar e ficar entorpecido nas fontes inspiradoras desses poetas sórdidos e loucos nos levando a outras dimensões extasiantes e aprazíveis e que nem o contraste dessa globalização invertida que nos foi imposta e nos coloca diante de uma horripilante era contemporânea com o completo abandono das letras onde mentes estão mofadas e há um total descaso quanto às informações, lê-se quase nada, portanto, entende-se menos ainda, ninguém se importa, as discussões e os debates são vazios e evasivos, os questionamentos infundados e o que conta mesmo são a publicidade e a exposição, sejam elas de quais formas forem, mas estarão sempre lá e é tudo isso que determinam as regras. Na mesa ao lado estavam os senhores das eras, de todas as eras confabulando sobre algumas coisas, John Kenneth Galbraith e Eric Hobsbawn me disseram para ficar tranquilo, pois há muito tempo vivemos uma era de incertezas e de extremos. Concordei com eles entendendo que nem toda essa triste desconexão corrosiva cultural e cerebral coletiva nos fará desistir e que ainda assim está valendo a pena, haverá sempre uma brecha para a criatividade, vez ou outra ficaremos reféns de uma sublime surpresa desses seres mentirosos e iluminados.
Na zonzeira rodopiante dessa
minha mente canalha e ladra e diante desse roubo descarado que cometi na
história das letras da humanidade recebi um telegrama bem resumido e confuso,
algumas linhas dadaísticamente aleatórias, um quebra-cabeças surreal me convocando
para participar de uma reunião extraordinária, não tinha endereço, data, sequer
motivo algum, nem nada e muito menos quem participaria desse obscuro encontro,
fui simplesmente levado até lá por uma estrada sinuosa e escura com muitas
bifurcações e precipícios sem fim. Cheguei em um local ermo no meio do nada e
fui conduzido na intimação naquela sala misteriosa sem portas nem janelas,
havia apenas um castiçal enferrujado com velas pretas apagadas e, no canto, um
gramofone tocava uma música em um volume muito baixo, quase inaudível, parecia
ser um canto gregoriano, algo operístico, tornando aquele clima ainda mais
soturno, ali estava um ser estranho me olhando de rabo de olho, jurava ser
aquele ser extraordinário Edgar Alan Poe e mais adiante o Woody Allen
conversando com um vulto imaginário, parecia um psiquiatra austríaco famoso, ao
lado dele o senhor Zelig imitando as personalidades históricas sem nenhuma
culpa.
Logo mais pertinho, em uma mesinha ao lado, o Robert Zemechis combinava com o Tom Hanks uma maneira de explicar pro Forrest Gump o que estava acontecendo, mas com seu raciocínio muito lento, não conseguia compreender nada, só parecia ansioso para sair correndo logo dali direto para o ponto de ônibus. Virado para a parede, tentando entender os mistérios da existência, Ingmar Bergman estava quase conseguindo enganar a morte em jogadas enxadristas, e a morte, que por sua vez, com um olhar enigmático parecia satisfeita e convencida que sairia vitoriosa sempre, e eu, encurralado naquela situação medonha obrigado a dar explicações sobre as aventuras plagiásticas dos mestres das escritas nessa minha narrativa atemporal-espacial me sentindo como a um detento aguardando a execução na cadeira elétrica.
Me vi em péssima situação,
fiquei embaraçado sem saber ao certo o que fazer e o que dizer. Esperei a
oportunidade e enquanto eles se distraiam com o borbulho de suas borbulhantes
mentes brotando ideias como uma avalanche sorrateiramente consegui me safar
daquele paredão de fuzilamento medieval. Sai dali com a mente em rodopio
como o Henry James lutando pra chegar na última volta do parafuso tentando
admirar, quem sabe, um mundo novo ou um novo mundo, mas com ânsia de dar
meia-volta e admirar aquele cenário ao mesmo tempo sombrio e colorido na
psicodelia das muitas páginas que ainda brotariam daqueles seres amalucados.
Por fim, fugindo desse mergulho poético e deliciosamente enfadonho, estava sozinho com a cabeça vazia, mas entupida de fantasias, magos, bruxas, castelos, mares, incêndios, catástrofes, paisagens geladas e longínquas, terremotos, maremotos e tsunamis, caravelas, heróis, princesas, ladrões, bêbados, piratas, drogados, prostitutas, quando ouvi uma voz sumidouramente estranha, era o Zaratustra me falando assim na recorrência eterna do retorno que acreditava aquele alemão bigodudo esquisito:
"Torna-te quem
és", a necessidade de ter
"caos dentro de
si" para gerar uma estrela dançante,
e o conceito de que o
homem é uma "ponte".
O homem é uma corda
esticada entre o animal
e o Super-homem — uma
corda sobre um abismo".
"Eu
vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si
para
poder dar à luz uma estrela dançante"
.
“Querer liberta: eis a verdadeira
doutrina da vontade
e da liberdade – assim Zaratustra
ensina a vós […]
Para longe de Deus e dos deuses me
atraiu
essa vontade; que haveria para
criar, se houvesse – deuses! Mas para o ser humano sempre me impele minha
fervorosa vontade de criar."
Sentei-me
em um banco debaixo de uma árvore refletindo e tentando encontrar uma razão
sensata para toda essa aventura sobrenatural, e bem ao meu lado o tal alemão
esquisito Friedrich Wilhelm Nietzsche também em uma de suas reflexões também sobrenaturais mais ou menos assim:
“Eu sou vários! Há multidões em mim.
Na mesa de minha alma sentam-se muitos,
e eu sou todos eles.
Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo.
Você nunca saberá com quem está sentado
ou quanto tempo permanecerá
com cada um de mim.
Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa,
nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos
um dos tantos que sou, e correrei os riscos
de estarmos juntos no mesmo plano.
Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento
manter preso
e que quando se solta me envergonha.
Não sou santo, nem exemplo, infelizmente.
Entre tantos, um dia me descubro,
um dia serei eu mesmo, definitivamente.
Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo.”
Nessa viagem cósmica toda,
fiz um retrospecto para poder vivenciar essa experiência nesse mar sem-fim de
letras como um círculo infinito. Cheguei à conclusão que mesmo sendo o recomeço
e as repetições inevitáveis, se o retorno é para ser eterno, então vou reler
tudo e começar de novo, e quem quiser pode embarcar comigo nesse carretel
embaraçado de cordas fantasmagórico numa viagem idílica sem fim, basta que você
use sua imaginação...






