Já temos um título:
“2019-2022: A OUTRA ODISSEIA OU OS ANOS QUE VIRARAM SUCO”.
A película será ambientada aqui mesmo no
Brasil e terá como pano de fundo as milhares de favelas país afora, a
Cracolândia, as passeatas domingueiras de Brasília, os moradores de rua, os
morros sitiados cariocas, as aglomerações dos desvalidos, as queimadas do
Pantanal e os desmatamentos da Amazônia, as cenas internas serão gravadas nos
Estúdios Vera Cruz em São Bernardo do Campo, será financiado por Silvio
Santos (também conhecido como o homem do Baú) e Luciano Hang (o
Zé Carioca) naquela honestidade explícita que todos conhecemos e com
patrocínio do Baú da Felicidade, e das Lojas Havan, o narrador será o
Gugu Liberato (o pintinho amarelinho) e já se manifestaram o Roger Corman
(o corvo) e o Alfred Hitchcock (o cineasta misterioso que gosta de aparecer)
para sugerir um personagem diabólico com nome de “Olavo, o Déspota Maldito”,
que obviamente não foi aceito, e na história terá também um diabo
retardado que ficará do lado direito da rua duelando com um exorcista
barbudo e alcoólatra que não assusta ninguém, esse, claro, do lado esquerdo da
rua, nem terão atores nem atrizes lindos, só gente feia e bizarra fazendo
o filme Freaks parecer uma comédia romântica açucarada e enjoada, com o Ed Wood
(o pior de todos) ficarão os cenários e os figurinos que serão reaproveitados
do filme “Plan 9 from Outer Space” tão grotesco quanto a nossa
realidade e a história será escrita pelo Woody Allen (o noivo neurótico)
que será também igualmente a nossa e não seguirá uma lógica nem um
sentido, pois não teria como encontrar um lógica e muito menos um sentido por
aqui, Quentin Tarantino (o faz tudo) poderá assumir a direção, ainda não
confirmou, está tentando encontrar uma entrada em nosso país, mas temos
outros candidatos, o Robert Rodriguez (o mariachi), Mel Brooks (o banzé do
Oeste e da Rússia), Sam Raimi (o Evil Dead alucinante), John Carpenter (aquele
motorista endiabrado) e o Rogério Sganzerla (o bandido da luz
vermelha), a produção ficará a cargo do José Mojica (o
Zé do Caixão, com as unhas que são o diabo) junto com o Amácio Mazzaropi
(o Jeca Tatu), o Jack Nicholson (um ser iluminado), Dennis Hopper (o chapado da
Harley) e o Peter Fonda (o outro chapadão da Harley) farão apenas
uma ‘ponta’, foram convidadas algumas atrizes e modelos pornôs, todas
já se apresentaram (nuas, claro) e também algumas
modelos/atrizes/estrelas/cantoras/garotas-propaganda, a Pamela Anderson (a
ativista modelo), a Anitta (a artista do século), a Paris Hilton (socialite e
hoteleira), a Hebe Camargo (a diva do sofá e dos selinhos), a Dercy
Gonçalves (que porra é essa?), a Wilza Carla (a eterna voluptuosa) e
a Aracy de Almeida (terror dos calouros) já confirmaram, mas as Barbies
Xuxa (a rainha dos baixinhos pra sempre), Eliana (a loirinha que esqueceu de
crescer), Adriane Galisteu (a loiraça que catou o Senna no Pit Stop) e a
Angélica (que chegaria de táxi ou de Uber, quem sabe) esnobaram e a Ana Maria
Braga (hummmmmmmmmmm!), que estava assando um bolo de cenoura e nem deu
bola, veio então o Louro José (esverdeado, mas corintiano
aloprado), o Arnold Schwarzenegger (o brutamontes exterminador), o
Steven Seagal (o quebra-ossos), o Van Damme (o malabarista) e o Silvester
Sttalone (o eterno Rambo) serão os contrarregras.
Convidamos também o abestado Tiririca (Florentina,
Florentina) para ser o ator principal, mas ele não dirá uma palavra
sequer, ficará saltitando fazendo algumas micagens e a atriz principal
será a Elza Soares (a empresária perpétua e esperta do simplório
Garrincha), a trilha sonora ficará a cargo do Nelson Ned (o pequeno notável)
e Reginaldo Rossi (o garçon) & Orquestra Tabajara (aquela do Severino) e o
Pablo Vittar (a drag queen influenciadora) já pediu pra cantar o tema de
abertura do filme: “Que país é esse?” e o Gabriel (o
Pensador) a canção de encerramento: “Tô feliz (Matei o Presidente)”.
No elenco, já escalados o Peter Cushing (o
Frankeinstein), Klaus Kinski (o vampiro da noite), Bela Lugosi (o autêntico
Drácula romeno), Linda Blair (a quase exorcizada), Vincent Price (a voz
congelante do Thriller), Christopher Lee (sugador de sangue gélido), Anthony
Perkins (o transtornado edipiano dissociado taxidermista psicótico), Max Schereck (Nosferatu, o rato do
Murnau),Grande Ottelo (Ai, que preguiça!), Oscarito (o ator chanchado
hispano-brazuca), Renato Aragão (Didi Mocó), Zé Trindade (mulheres,
cheguei!), Charles Laughton (o Quasímodo), Pedro de Lara (o jurado carrasco) e
Ronnie Von (o eterno príncipe eterno).
Sinopse: a coisa começaria em 2018, um ano que
existiu sim, mas apenas como panfleto quase um ectoplasma e que não foi de todo
ruim, só que havia algo estranho no ar, seres rastejantes e quase sem
cérebro engrupindo a população que por si só já é facilmente
manipulada, nem precisava tanto, nem precisava daquele circo, nem precisava de
nada, parecia uma serra elétrica cortando as cabeças e pedaços de cérebros com
células mortas voando pelos ares lembrando um Bad Taste tupiniquim, houve um
alvoroço, todos estavam condicionados a odiar tudo que aparecesse, era
o ódio como bandeira, George Orwell (o grande irmão) junto com o Klaatu
(que paralisou a Terra) estavam liderando a manifestação, nem parecia ser
ficção, a existência da vida na Terra, seus comportamentos já são um
filme, um filme ruim, um filme-catástrofe, receberia fácil a alcunha de ‘pior
filme de todos os tempos’ com a Framboesa de Ouro cedida por Hollywood, mas não
passa de um filme. Esses artistas todos citados aí em cima serão os
protagonistas, mas o restante de cerca de 8 bilhões de quase androides também
farão parte da coisa, serão os figurantes que serão dirigidos por Isaac Asimov
(o homem-robô), mas como 2018 e 2019 foram anos sem a menor graça
já pulamos para o ano de 2020, depois 2021 e, finalmente 2022, quase uma
piada e muito descaso, se fosse um quadro seria pintado por Salvador
Dalí (o viajante psicodélico-lunático), por aqui ninguém se entendeu e o
bate-cabeça é rotineiro, há quem concorde com tudo, não precisa
pensar, argumentar, gritar, espernear, calcular ou
vomitar, é só aceitar, ou, como grosseiramente dizem por
aí, é só ‘relaxar e gozar’, e pronto. Esse filme
já nasceria um clássico, se do horror eu não sei, mas seria, com certeza,
um acontecimento.
Depois de tudo pronto, atores e atrizes escalados e
ensaiados, roteiro escrito e revisado, cenários montados, população hipnotizada
e com máscaras de proteção colocadas na marra, enfim, mas assim como aconteceu
com o Al Capone em 1932 no filme “Scarface - A vergonha de uma nação”,
precisávamos do aval ou da canetada do mestre divino, do Hórus vivo, do mito,
mas eis que em sua ignorante sabedoria parca, arrogância apática e total
aversão à cultura em geral, o projeto foi rejeitado e nem sequer
engavetado, foi simplesmente carimbado na frente e no verso com o selo de
reprovação com a alegação que seu conteúdo seria imoral, ilegal,
antipatriótico, pornográfico, antropofágico, manipulador, grotesco, impróprio,
esquerdista, pedófilo, desobediente, contrário, racista e irresponsável, e,
detalhe, o chefão-censor-sem-senso não se deu ao trabalho de ler o roteiro
(dizem por aí que nem é adepto às leituras, vai saber) nem
conhecer os cenários ou os artistas e não gostou do título, sendo tudo depois
sumariamente incinerado, algo assim como tudo que remete à cultura em
nosso distraído país.
Altair José (O espectador)