sábado, 3 de fevereiro de 2024

PRA FRENTE BRASIL

 




De novo! Estamos em ano eleitoral. Em casa 2026 teremos Eleições Gerais no Brasil para presidente da república, governadores, senadores e deputados estaduais e federais. Os pleitos acontecerão assim: o 1º turno está marcado para o primeiro domingo do mês de outubro, no dia 4; já o 2º turno será no dia 25 de outubro, caso necessário. A votação terá início às 8h, considerando-se o horário de Brasília, com encerramento às 17h. Nem vou perder meu tempo dizendo 'vote com consciência e seriedade'.
Eventualmente e religiosamente, a cada dois anos nosso país se infla polvorosamente em vertentes disso ou daquilo, desse ou daquele outro (agora mais do que nunca com o país rachado na estupidez das camadas ignorantes). Nos quatro cantos mais íngremes, distantes e inacessíveis das cercanias brasileiras (que usando um adjetivo pátrio gentílico, vamos nos apelidar de brasilianos ou brasilienses), quando de repente como num passe de mágica uma avalanche de políticos espertalhões com a mais perfeita 'cara de pau' tal qual um bando de jabutis saindo da sonolenta hibernação, deixam seus confortáveis casulos para ludibriar o desdentado, o esfomeado e, principalmente, o desletrado eleitor de todas as classes, níveis e credos possíveis: 'com licença, posso entrar na sua humilde casa? Eu sou o fulano de tal, com certeza a sua melhor opção para representá-lo no próximo governo. Tome, fique com meu 'santinho' pra você usar como 'cola' e não errar no dia da eleição. Então, meu amigo, eu prometo…’
Em uma viagem no tempo, vamos passear lá pelos longínquos anos 1970. Enquanto os EUA retiravam suas tropas do Vietinã com o rabo entre as pernas, no Brasil as cortinas dos festivais antológicos de músicas se fechavam em uma marra pesadíssima, as vozes políticas se calavam e as violas enraivecidas eram espatifadas em plenos palcos enquanto no resto do mundo era deixado para trás a mensagem de 'paz e amor' e o Flower Power do verão do amor livre e ficaram para sempre em nossos corações e mentes aquelas canções psicodélicas maravilhosas. Por aqui, no apogeu da ditadura militar, em uma estranha e inusitada paralisia mental, o país flutuava feliz da vida, existia uma extasiante ilusão quando os corações das pessoas estavam tingidos do mais puro verde, amarelo, branco e azul-anil (Lá lá lá lá), e de repente era uma corrente pra frente onde nas praias de um Brasil ensolarado se deu a mão e Deus parecia abençoar: 'esse ano quero paz no meu coração...'. As criancinhas eram levadas pelas mãos de gente grande e nas escolas, elas aprendiam as OSPB e as EMC de uma maneira bastante ‘simples, ordeira e correta’, e, tal qual implantado 'democraticamente' nas eras de hoje, nas escolas, cantávamos o glorioso Hino Nacional patriota e rigorosamente. Nessa alucinante utopia mágica o que se ouvia nos quatro cantos da pátria amada idolatrada era esse grito eufórico e ufanista, 'Pra frente Brasil', culpa da seleção canarinho que fazia bonito nos gramados astecas, ficou na memória, não mais havemos de ver nem ouvir, mas na tradução realista da Roma antiga isso era a parte do “circo” na política inventada pra engambelar a população: ‘Panem et circenses’ (pão e circo), e em consonância com os milicos daquele nosso cenário ilusoriamente florido e ao mesmo tempo tão pesado quanto chumbo, o magistral atleta de todos os séculos, que alguém profanou arranhadamente que ele 'calado é como um poeta', o senhor Edson Arantes do Nascimento, conhecido em toda a Via Láctea como Pelé, assim sendo em mais uma de sua vasta coleção de pérolas, disse: "brasileiro não sabe votar". Alguém concorda? Eu não! Brasileiro sabe votar sim, apenas não tem as informações que precisa, é analfabeto político e vota com raiva, protesto, por amizade, por parentesco, por vingança, por não ter opção (diz-se), com o fígado inflamado, para contrariar as vertentes, sejam elas esquerdistas, direitistas, centristas, comunistas, socialistas, niilistas, altruístas, diaristas, vigaristas, paraquedistas ou dadaístas, para poder prestar concursos públicos, não ficar impedido de viajar para o exterior (faz de conta que temos condições para isso; o senhor Guedes disse que 'sim'), porque foi cancelado o churrasco, não suportar a programação horrorosa das TVs, poder tirar sua carteira de identidade, por estar puto, em troca de esmolas, na incontida felicidade daqueles trocados das bolsas e dos auxílios emergenciais, por uma marmita fria, na admiração de um candidato caricato, poder pedir empréstimo na Caixa Federal com 587 meses para pagar e ficar imediatamente na inadimplência, por estar entediado, para não precisar justificar, para não ter que pagar multa, para discutir e brigar com todo mundo, por ser obrigado, por não ter mais nada pra fazer, ou apenas vota por votar. Essas criaturas têm sumariamente subtraídos seus poucos direitos, com educação ignorada e quase nenhuma cultura, saúde precária e sem qualquer assistência, a maioria vive no submundo das realidades e das cidades, jamais abriu um livro, não lê os jornais nem revistas, ignora qualquer artigo e esse meu texto aqui, por exemplo, lerá, se muito, duas ou três linhas sem entender bulhufas, e jamais se aproveitará das tecnologias de maneira sensata. Mas não é sua culpa, foi induzido a isso e parece estar satisfeito com essa situação tão abstrata quanto concreta. Sendo assim, meus caros carismáticos (e)leitores e minhas charmosas domesticadas (e)eleitoras, nós, brasileiros, sabemos votar sim senhor: elegemos e reelegemos por conveniência o que classificamos como péssimos políticos, vagabundos, corruptos ou ladrões, elegemos palhaços debochados, a cantora rabuda do funk, o Rambo, aquele parente distante que te ligou para pedir seu voto, o sósia do Ali Babá e também os 40 ladrões, o amigo do amigo do nosso amigo, o cidadão de nome engraçado, no Tonho da Lua, o engolidor de pilhas, o parente que transferiu seu título, o malabarista do circo que nem domicílio fixo tem, o ladrão de joias, os cúmplices do ladrão de joias, o parça do ladrão de joias, o amigo do ladrão de joias, os parentes do ladrão de joias, a esposa mundana do ladrão de joias, o filho cara de pau do ladrão de joias que curte umas rachadinhas e é o dono da fantástica loja de chocolates que dá um inusitado tremendo lucro, na Geni do Zepelin do Chico Buarque e na Geni castigada do Nelson Rodrigues, no Bozó que trabalha na Globo do Chico City, o bombeiro que salvou o gatinho, atores pornôs com paus gigantes, a dona de casa que nas horas vagas picha monumentos com batom e o delinquente que destrói obras de arte sem ter noção, o galã da novela e a moçoila peituda bonita, no Zumbi dos Palmares, o Senhor dos Anéis, o cara que veio consertar sua calha, o sorveteiro e o padeiro, na Capitu do Dom Casmurro, o cara estranho que evoca ETs com o celular, o youtuber inútil e sem graça, a Panicat, a Paquita e a Chacrete, a mulata gostosa do Sargentelli, na Velhinha de Taubaté do Veríssimo, o outro cara estranho que reza para pneus(?), o cantor decadente do grupo Polegar, o amigo frequentador do mesmo bar e o dono do bar que vende fiado pra todo mundo, a senhora bondosa do fim da rua, na Angélica que vai de Taxi, na Xuxa do Ilariê e na Eliana, a eterna menininha, o cantador de bingo da quermesse com voz de locutor, no Riobaldo, o jagunço filósofo do Guimarães Rosa e no Guimarães Rosa, o cara que nem mora no seu Estado ou na sua cidade, o insosso comentarista da Rede Globo, o doido que fugiu do hospício (opa!, escorreguei no pleonasmo), na Hebe, na Nair Belo e na Lolita Rodrigues, o pagodeiro bandido de cara lavada, na Gabriela Cravo e Canela, o borracheiro e o dono da funerária, no Gugu Liberato (o pintinho amarelinho) e no Silvio Santos (quem quer dinheiro?), a insípida garota da loja de lingerie, mais outro cara estranho que se pendura em para-choque de caminhão em movimento (o patriota do caminhão), o entregador do Mercado Livre que 'sem querer' deixou um 'santinho' grudado na sua encomenda, no Odorico Paraguaçu ou no jegue do Nezinho, na Gretchen do Piripipi, o técnico do seu time do coração, o ex-jogador do seu time do coração, o cara 'gente boa' do conveniência do posto de gasolina, no Dr. Simão Bacamarte da Casa Verde, a pistoleira destrambelhada que se acha carcamana, o tedioso vendedor de bilhetes, a velhinha surda da Praça é Nossa, naquele sertanejo milionário que voa por cima da sua cabeça com seu jatinho, o astronauta que nunca foi pro espaço, mas vive no espaço, o tatuador talentoso, no Grande Otelo e no Macunaíma, no Biro-Biro do Corinthians, a dançarina do Faustão, o cantor de axé bombado de cabelo amarelo, na cadela Baleia de Vidas Secas, os pavorosos influenciadores digitais, no seu Mané da caneta azul, os heróis popularescos do programa do Datena (antes da dança das cadeiras), que assim no dia seguinte já nem nos lembramos mais em quem votamos para ficarmos horrorizados, emputecidos, arrepiados, arrependidos ou satisfeitos por quatro anos a fio e imediatamente fazermos tudo novamente e novamente e novamente e novamente. Sem trocadilhos de propósito, para confirmar, diante dessa catarse cerebral democrática/obrigatória, votamos com consciência e na certeza de que estamos fazendo a coisa certa no que nos cabe em nossa parcela cidadã, seja por voto impresso ou pelas atualmente injuriadas urnas eletrônicas. Em um resumo rabiscado, tudo isso não passa de um deboche orquestrado com a cara do eleitor.
E, obrigado Pelé, o senhor foi um atleta espetacular.

Brasis, outubros das desesperanças

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