O estupendo escritor russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski já escreveu, brilhantemente, como sempre, sobre essa peculiaridade do ser humano, e o filosofo grego Aristóteles separa o cidadão comum em dois parâmetros: os que gostam e participam de política e suas vertentes, são os ‘polítes’, e aqueles não gostam nem participam, são os ‘idiotés’~. Mas não se aborreça, não será nessa temática paradoxal e humanística da idiotia que vou discorrer nessa fábula interessantíssima, é uma citação metafórica da idiotice no sentido figurado que poderá ser interpretada de várias maneiras. Aqui, será no âmbito funesto do dia a dia de nossa ocupação nessa terra lírica idílica dos Davis, Golias, Messias e Pachecos, o que nem chega a ser uma deficiência mental no sentido patológico.
Eventualmente somos classificados honrosamente dentro desse adjetivo nefasto
pelos capitães de castela soltos por aí, somos nós, os idiotas úteis ou inúteis,
tanto faz. Talvez sejamos mesmo muito feios, sujos, burros e malvados, pois desde sempre numa certeza empírica, colocamos vendas nos olhos, algodões nos ouvidos e lacramos nossas bocas para votarmos em pilantras e elegemos vagabundos
e/ou incompetentes para nos governar e nos expor em uma subestimação cruel e
obediente do quilate de um jabuti. Aleatoriamente tiramos governantes corruptos e
colocamos outro sósia em seu lugar para imediatamente pedirmos seu afastamento para assim
assumir seu vice que é tão ignóbil quanto seu destituído chefe, isso
cheira a uma redundância bestial. Enfiamos a cleptocracia goela abaixo e como se não
bastasse apoiamos genocidas e louvamos passados sombrios da nossa história e
ainda debatemos com todo mundo acreditando que esses calhordas vão salvar esse
nosso país que já esteve perto do paraíso e agora é tão estranho
e desconhecido batendo na porta do purgatório. É o círculo vicioso da
inacreditável, desatinada, descabida, desinformada e desvirtuada consciência
política no Brasil. Engolimos mentiras deslavadas dos políticos caras de pau e
acatamos masoquistamente medidas para nos prejudicar como se fôssemos um
amontoado de larvas desprezíveis desprovidos de qualquer ação cognitiva. Ser uma
população obtusa não tem graça nenhuma.
Tentamos justificar oportunamente as presepadas de administradores atuais com erros do passado, mas na conveniência do momento isso é retrocesso e falta de argumentação. Pagamos tributos compulsoriamente embutidos nos produtos que consumimos que chegam a porcentos surreais e recebemos quase nada (ou nada) em benefícios, sendo muitos desses impostos cobrados gatunamente várias vezes com nomes diferentes. E, afinal, o camarada tinha razão, somos assim tão idiotas ou só estamos fingindo pra ver a banda passar?
Sem qualquer vestígio de altruísmo, no ápice de nossa mediocridade discutimos com nossas esposas, esposos, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, parentes, o motorista do ônibus, frentistas dos postos de combustíveis, o catador de recicláveis, com o taxista ou o uber, caixas de supermercados, o atendente do guichê e de quebra amaldiçoamos a pobre moça do telemarkting pelos motivos mais banais possíveis desperdiçando momentos preciosos de nossa agora ainda mais breve e insignificante existência por aqui. Emporcalhamos nossa cidade e descaradamente culpamos o poder público. Por completa ignorância pichamos e destruímos monumentos históricos seculares com a naturalidade de um débil mental, e num lapso violento esquecemos nossa história como se fosse um filme ruim que assistimos ainda ontem.
O país está vergonhosamente monopolizado nas áreas da comunicação e entretenimento, pagamos um pau dandado pra uma emissora que parece estar sempre debochando da gente, enquanto nos portamos como hienas. Nos ramos de alimentos, bebidas e serviços, bancos e instituições financeiras onde fazem fortunas do dia para a noite e por aí vai. Mesmo assim compartilhamos coniventemente com essa farra.
Malhamos a horripilante programação da TV aberta,
mas assistimos assiduamente à sua programação na certeza de que
gostamos de lixo, pois a classificamos como lixão. Estacionamos nosso veículo
em locais proibidos e nas vagas preferenciais, mas na primeira oportunidade
criticamos hipocritamente a atitude idêntica da outra pessoa. Obstruímos
estacionamentos nas vias públicas com cones, caixas e outros adereços para nos
favorecer como se fôssemos os donos da rua ou agentes de trânsito.
Somos os espertalhões com a cara maquiada do idiotia contemporâneo provinciano. Voamos com nossos carros sem respeitarmos
os limites de velocidade, seja nas cidades ou rodovias, reduzindo apenas onde
estão localizados os radares em uma inusitada mistura de esperteza,
oportunismo, insanidade e, claro, idiotice.
Estacionamos ou paramos nossos veículos em fila
dupla em frente à escola do nosso filho ou em qualquer lugar sem nos
importarmos se estamos atrapalhando o trânsito, muitas vezes com a seta ou o
pisca-alerta ligados como se isso nos desse a permissão para burlar as leis.
Aguardamos a passagem dos veículos, mas não aguardamos os pedestres e para piorar, quando deparamos com uma pessoa tentando atravessar a rua, imediatamente aceleramos nosso veículo em sua direção em sinal de selvageria para que o vulnerável cidadão em óbvia desvantagem se desespere e saia correndo para não ser atropelado, talvez por puro sadismo, diversão ou falta de educação mesmo. É muito idiota isso. Elogiamos atitudes de cidadania de nossos compatriotas e não fazemos o mesmo. Acatamos regras e costumes de bom comportamento em outras regiões quando a passeio e não as praticamos em nosso domicílio. Com reações niilistas, brigamos com as pessoas por discordarem do nosso ponto de vista como se a verdade fosse absolutamente só nossa. Somos soberanos em nossos assuntos, não nos interessa e nem queremos ouvir a opinião da outra pessoa, algo como um monólogo exclusivo, só o que importa é o nosso problema que acreditamos ser o maior do mundo. Desprezamos, rimos, troçamos e nos divertimos com os "diferentes" por puro prazer. Então, quem é o idiota nessa história? Esperamos acontecer tragédias para ainda assim e, muito raramente, tomarmos providências, deixando a certeza que os seres humanos não passam de algumas estatísticas do horror. Números. Com total ausência de noção, fazemos propagandas de um país com educação básica de primeiro mundo e temos uma das piores educações de todo o planeta com nítidas expectativas de mais abandono e sucateamento. Atualmente a ladeira está ainda mais íngrime.
Somos, além de idiotas e pretensiosos, mal educados e mal-educados. Nosso filho, na escola, estará sempre certo e se chamados pela direção, iremos, com toda certeza, criticar a conduta, as normas e regras da escola e nunca de nossos lindos, educados e respeitadores filhos.
Não
gostamos do nosso idioma, pois, em um absurdo contexto de sofomania insistimos
em usar, desnecessariamente, palavras e expressões estrangeiradas para
identificar uma infinidade de produtos e outras nomenclaturas, ainda que a
maioria das pessoas nem saiba pronunciar ou escrever e se quer faz ideia do que
significam esses termos, mas acredita piamente que assim tudo fica mais
"chic" na ignorância primitiva de que temos um dos mais ricos e
complexos idiomas do mundo e que, de quebra, mal sabemos falar ou escrever. Hoje,
Policarpo, com certeza teria ânsias de vômito.
Comandados por uma tropa obtusa que em surtos de
bestialidade, com argumentos que não convencem quase ninguém, exceto alguns
mentacaptos engajados em idealismos absurdos estamos destruindo o que resta de
esperança em nossas universidades que, na contramão da pseudointelectualidade
que assola o país, além da qualidade dos cursos oferecidos, têm índices
altíssimos de reconhecimento de pesquisas em diversas áreas e toda a cena
científica. Conclusão: estamos caminhando, seguramente, para uma catástrofe
cultural e intelectual sem precedentes. Comentamos as falcatruas e roubalheiras
dos políticos sujos e como uma alcateia de hienas rimos da nossa própria
desgraça e pior, esperneamos como otários antes de pagarmos a conta
que é amargamente alta, mas pagamos sempre. Vemos pessoas ostentando
luxúria e gente sórdida esbanjando nosso dinheiro, enquanto nós recebemos
péssima educação, saúde precaríssima, nenhuma segurança e salários minguados, e
para piorar convivemos com colegas de trabalho legislando (no transitivo direto
e intransitivo) em causa própria determinando a destruição moral e a autoestima
de seus companheiros sem o menor arrependimento.
No vaievém da corte sonâmbula, assistimos inertes
os abobalhados ignorando de uma maneira naturalmente absurda uma chaga mortal
solta pelos ares pronta para nos contaminar e destruir nossas vidas. População
dividida politicamente e torcendo para dar errado se esquecendo que o
país é um único espaço onde todos serão afetados, é o
tal ‘tiro no pé’ ou a ‘bala na cabeça’. Endeusamos inefavelmente
seres humanos na condição de governantes e artistas elevando-os a patamares de
mitos e ídolos sendo que imediatamente os transformamos em canalhas
imprestáveis, deixando claro que não temos o menor senso de coerência ou
conhecimento de causa. Por fim, redes sociais com uma gama infinita de opções e
só postamos nulidades e inutilidades por dias a fio e ainda insistimos com
tolices a todo instante achando que assim nos tornamos
intelectuais-virtuais-cibernéticos.
Se o criador dessa coisa toda errou feio na fórmula
ou na concepção, fica a eterna dúvida [?]
É, provavelmente, meu mais longo texto, mas foi de
propósito, poderia ficar escrevendo aqui por anos a fio, a quantidade de
idiotice que flui por aí parece não ter fim, mas se é verdade
que só os idiotas são felizes, pois não sabem que vão morrer...
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