sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

MUITO PRAZER, EU SOU O BRASIL

 

 

Um certo português aloprado tomou umas a mais, perdeu o rumo, errou o caminho e veio parar em minhas praias, me encontrou num 22 de abril no longínquo ano de 1500 (d.C.), gostou tanto que aqui ficou, e garanto pra vocês que nessa época eu era muito mais verde e bonito, mas deixa isso pra lá, pois ninguém nem mais se importa e essa data passa despercebida sempre, é um dia como outro qualquer, sem a menor importância, visto que o dia anterior é feriado nacional, mas o dia do carnaval que nem feriado é, ninguém esquece. Não sei não, mas acho que cheguei no meu limite, ando meio enjoado, já faz tempo que estou vendo números alarmantes de erros primários, coisas desnecessárias e de uma incompetência hiperbólica, tá pesado o fardo em minhas costas, penso seriamente em fechar tudo pra balanço, mas antes, deixa me apresentar, esse sou eu, o Brasil, meu nome oficial é suntuoso: REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL, sou o maior país da América do Sul e da região da América Latina, sendo o quinto maior do mundo em área territorial e sexto em população e tenho sob minha responsabilidade mais de 212 milhões de pessoas, além de ser uma das nações mais multiculturais e etnicamente diversas, em decorrência da forte imigração oriunda de variados locais do mundo.

Nossa como sou importante e nem tinha percebido. Já tive sete Constituições, incluindo a atual, olha elas aí:

1ª - Constituição de 1824 (Brasil Império)

2ª - Constituição de 1891 (Brasil República)

3ª - Constituição de 1934 (Segunda República)

4ª - Constituição de 1937 (Estado Novo)

5ª - Constituição de 1946 (é a de 1937 remendada)

6ª - Constituição de 1967 (Regime Militar)

7ª - Constituição de 1988 (Constituição Cidadã)

Essa última e que está valendo hoje foi elaborada nos anos de 1980, uma década bem bacana que nos premiou com uma avalanche de boas canções, ótimas bandas nacionais, aquela turma de Brasília (sim, já teve gente legal por lá) e outras belas bandas internacionais também, e foi nessa década que um tal Sr. Ulysses Guimarães, um sujeito não muito bonito, mas com uma inteligência linda de se ver, que depois sucumbiu estranhamente nas entranhas do mar junto com um helicóptero, foi esse cara aí quem comandou a elaboração da minha atual Constituição, carta que foi aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte no dia 22 de setembro e promulgada em 5 de outubro de 1988, e seu nome oficial é “Constituição da República Federativa do Brasil”, legal né? É a minha lei fundamental e suprema, serve de parâmetro de validade a todas as demais espécies normativas, situando-se no topo do ordenamento jurídico, importante pra caralho, pode ser considerada a minha sétima ou a oitava constituição e a sexta ou sétima constituição em um século de república, ficou conhecida como "Constituição Cidadã", ganhou esse nome por ter sido concebida no meu processo de redemocratização, iniciado com o encerramento da ditadura militar que durou de 1964 a 1985, anos de chumbo, um horripilante período com torturas, perseguições, gente convidada ‘gentilmente’ a se retirar do país e o escambau, tá tudo nos livros, vai lá, o fato é que sofri um bocado.

Tem um pessoal por aí que gostaria de reviver tudo isso, óbvio que são arredios aos livros e desconhecem a história. Até esse momento, foram acrescentadas 115 emendas, sendo 107 emendas constitucionais ordinárias, seis emendas constitucionais de revisão e dois tratados internacionais aprovados de forma equivalente, esse pessoal adora remendar tudo. Deve ser um documento muito valioso, não é mesmo? E é sim, mas tem uns caras aí que não acham não, esculhambam essa ‘Carta Magna’ como se fosse um papel higiênico já usado, coisa de maluco.

Sou uma República Federativa Presidencialista, formada pela união de 26 estados mais o Distrito Federal e 5570 municípios, tenho como chefe de Estado um presidente e a minha União está divida em três poderes, independentes e harmônicos entre si que são eles: o Legislativo, que elabora leis; o Executivo, que atua na execução de programas ou prestação de serviço público; e o Poder Judiciário, que soluciona conflitos entre cidadãos, entidades e o Estado, esse tem bastante trabalho. Ganhei de presente, desde 1º de janeiro de 2019, 22 pastas ministeriais, sendo 17 ministérios, duas secretarias e quatro órgãos equivalentes a ministérios. Cada ministério é responsável por uma área específica e é liderado por um ministro ou ministro-chefe, tem também uma enxurrada de deputados, 513 no total e mais 81 senadores, gente pra cacete, - e é agora que a coisa começa a perder a graça - com salários acima de 30 mil reais e não considerando as infinitas, intermináveis e desnecessárias ajudas de custo com nomes engraçados e verba de gabinete para contratar até 25 funcionários, sendo alguns ‘fantasmas’, as regalias parecem não ter um fim, esses são meus filhos bastardos, apesar de trocá-los a toda hora, não tenho tido muitas alegrias com eles não. Pensa que acabou? Que nada. São vários recessos ao longo do ano e pior, isso não tem nenhuma correlação com minha realidade, a grande maioria repousa sob algum tipo de investigação, com a ficha muito suja, imunda e estou entregue à corrupção, à violência, ao abandono em todas as áreas possíveis, passando pela saúde, segurança, educação, saneamento básico e o descaramento é tão grande que minha população nem liga mais, e é de se crer que essa montanha de dinheiro está sendo usada da maneira mais promíscua que existe, não suporto mais tanto peso morto em minhas costas, tanta subtração de meus cofres e ainda com a cara-de-pau ficam berrando nos meus ouvidos que meus cofres estão vazios, que não tenho dinheiro pra nada.

Meus administradores não fazem nenhum investimento e que tiraram quase todas as verbas das áreas essenciais e logo em seguida o TSE anuncia a permissão para o uso do fundo partidário de vários bilhões para os políticos torrarem em campanhas eleitorais, despejando aquele monte de merda nos ouvidos dos meus filhos (esses sim, legítimos) sem dó. O que vocês estão fazendo comigo? Afinal, devem me chamar de país ou de puteiro?

Nas questões políticas, assistimos a toda hora absurdos dignos de um filme de terror ou de comédia, sei lá, olho por mais 200 milhões de espectadores estupefatos, porém inertes, coçam as cabeças com um ponto de interrogação do tamanho de um prédio, andam pelas ruas e observam incrédulos cenas de canibalismo moderno com irmão engolindo irmão sem nenhum remorso, jogam bosta no ventilador e vomitam nas caras uns dos outros só pra ver como é que fica. Vocês precisam parar com essa idiotice de discutir com seus compatriotas defendendo vagabundos travestidos de bons políticos, pois, assim fico muito enojado.

Quando entramos nas vias de eleições, que por aqui são diretas mas o voto é democraticamente obrigatório onde serão eleitos meus representantes, como o presidente, governadores, senadores, deputados estaduais e federais, prefeitos e vereadores e só o que vejo é uma grandeza de salvadores da pátria, gente que já esteve por inúmeras vezes no poder ferrando com tudo, cagando nas cabeças de todos e caminham discursando por aí como se estivessem chegando agora: ”não sei de nada, não fiz nada, não roubei nada, não extorqui ninguém, quando cheguei já estava assim”.

E aleluia, fui salvo, estou de recesso.

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