sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

MACHADO, VIU O SENHOR BRÁS CUBAS POR AÍ?

 

 

Ontem eu morri. Não sei se poderei me considerar um sujeito de sorte. Hoje os vermes passeiam por minhas entranhas pútridas. Inda sinto o amargor do último gole de cerveja barata e morna que ingeri e esse ranço não surtiu nenhum efeito póstumo digno de qualquer obituário. Antes de tombar pude constatar que minha breve e medíocre existência nessa terra de acasos sofismáticos teve pouca ou nenhuma importância circunstancial que valha a pena discorrer, uma provável distopia ou um apocalipse particular talvez, mas assim mesmo vou relatar, nem que apenas você, desimportante leitor, que não tem qualquer apreço por seu tempo e nada mais interessante para fazer nessa sua vidinha sem graça nem perspectiva, insista em ler. Sempre foi de praxe, pega-se o milagre da existência e o transforma em nada, assim pode-se dizer que a felicidade é um amontoado de besteiras onde algumas pessoas insistem em acreditar, mas tudo não passa de balela, uma penca de balela que ao longo da vida vai se revelando a cada dia menos interessante e ainda mais frustrante, não dá para acreditar que exista esperança em qualquer horizonte, as asnices profanadas pelos ares e as atitudes medonhas remetem ao desespero, são as ilusões perdidas, parece existir um pacto sinistro entre a vida e a morte que estiveram sempre caminhando de mãos dadas, quase atadas, são parceiras desde os infinitos, estão rindo de todos nós que acreditamos em absurdos sobre o céu e a terra, o bem e o mal, o amor e o ódio e essas coisas, são as filosofias tão reais quanto vãs. Em minha jornada tétrica conheci alguns capacitores voláteis das encrencas que ainda estão soltos por aí e parece que eternizarão nas vagueações terrestres, esses não tinham a noção de quando começar a pensar e muito menos de quando calar-se, eram os imbecis de afinco que não acreditavam que a morte é só um mistério que não se sabe se existe um final ou se é um início, não se sabe de nada, mas calha crer que é só uma fatia do ciclo, talvez acreditassem na eternidade, eram soberanos e em suas mentes restritas pareciam estar sempre no topo das razões. Essa era uma das piores partes da convivência compulsória com o ser humano classificado como inteligente, racional, uma lástima, seres que posavam com uma postura soberba e esnobe que não combinavam com a aridez das atitudes quando a ganância desmedida acabou por aniquilar tudo de uma vez. Na mais pura imagem vertiginosa viam-se as dancinhas ridículas, as micagens e os maneirismos engraçadinhos nas importantes plataformas desumanísticas, um pavor, e de quebra, para o meu desespero e desconsolo, no final das contas, além de todas essas manifestações paisagísticas mortas ainda fui contemplado com a contemporaneidade dos bichos chamados homens das lideranças bisonhas. Incrível, meu caro Charles Darwin, que a isso se chamou de evolução.

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