“Levou-me
o dinheiro, a má fortuna,
Ficamos sem
tostão, real nem branca,
macutas,
correão, nevelão, molhos:
Ninguém vê,
ninguém fala, nem impugna,
E é que
quem o dinheiro nos arranca,
Nos
arrancam as mãos, a língua, os olhos.”
Boca do
inferno, o poeta desbocado, debochado e maldito Gregório de Matos lá pelos
acontecimentos literários de 1600 com sua
poesia ‘pornográfica’ esculhambava a Igreja, os padres, as freiras e
a cidade de Salvador na Bahia; guardadas as proporções intelectuais
quilométricas dos nossos dias, muita gente faz a mesma coisa em outras esferas
e outras plagas, ninguém está nem aí pra tal etiqueta, comportamentos
esdrúxulos e de péssimo gosto, nosso planeta está se transformando em um
amontoado de lixo orgânico, inorgânico e humano, é fato que em breve
ficará inabitável, as verdes florestas estão pintadas de cinza, os rios
cristalinos transformam-se rapidamente em imagens turvas, o dia vira noite de
tão escuro onde o ar está pesado de poluição, mares azuis se transformando
em tanques de piche, animais sendo sumariamente extintos, seres tão
desprezíveis com atitudes desmedidas e sem qualquer noção, falam-se asneiras
com bocarras a céu aberto, pessoas são massacradas verbalmente com nenhuma chance
de reação ou defesa, cidadão desnorteado malhador de governantes no revés da
lucidez praticando a mesma corrupção a todo momento. Verdugos urbanos dirigindo
suas máquinas da morte por aí afora como se fosse uma metralhadora
cuspindo balaços por todas as direções e se achando o máximo com uma atitude
tão grotesca quanto irresponsável.
Cuidado! No
carro da frente, do nada alguém pode atirar algum objeto pela janela sem
nenhuma cerimônia, porcarias aparentemente inofensivas, mas que podem
assustá-lo e causar um acidente do mesmo modo que o imbecil que praticou a
malfadada atitude estará pouco se lixando pelas consequências de sua
irresponsabilidade. Idosos errantes recolhendo latas e garrafas pelas ruas para
sobreviver em vez de estarem em casa brincando com seus netos e bisnetos por
conta de uma previdência corroída pela corrupção ao longo dos anos, a
culpa é minha, é sua, é nossa e é daquele lá.
Então,
pagaremos uma conta que jamais terá um fim. Seu colega de trabalho, na
primeira oportunidade, te fará réu do acaso quando lhe for favorável e
conveniente, procure não lhe dar a chance, pois ele vai agarrá-la com sua vida
e ‘você’, tanto faz ou tanto fez, então, apenas seja um colega de trabalho
no trabalho e só, pegue seu dinheiro e vá pra casa, meu caro bípede mortal. As
pessoas estão aplaudindo qualquer coisa, talvez apenas pra contrariar o outro
que não compartilha da mesma cena, mesmo que estejam sendo esfoladas,
engrupidas e esfaceladas. É o triste cenário do mundo contemporâneo
conectado vinte e quatro horas por dia em um amontoado de tecnologia a serviço
do nada, de nada e pra nada, pois a grande maioria se quer faz ideia do que está fazendo
e pra que serve tanta parafernália. É a liquidez humana numa
manifestação desesperada.
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