Ficamos um
tanto quietos, quase calados e por metáfora, mas não cabisbaixos, amordaçaram
nossa esquina sonora, mas daquela vez apertaram tanto o nó que foi
difícil, quase impossível desatar. Assim sendo, tivemos uma porção de gente
feliz com aquela expressão aparvalhada se sentindo aliviada e com a sensação de
dever cumprido. Parece mesmo que a felicidade, o prazer e a alegria do
outro incomoda demais e na atitude grotesca e inescrupulosa a
coisa é feita e acatada pela maioria que se diz ou que se acha dona
da situação e senhora da razão. Nossa (vossa) cidade tolera apenas um ou dois
tipos (ritmos) de manifestação musical, não sei se bom ou ruim, eu,
particularmente, acho um lixo, mas muitos consideram um luxo, sabe-se
lá, é o lugar onde você é condenado a ouvir esse estrondo
medonho madrugada adentro até não aguentar, mas tem que aguentar,
já que não tem a quem reclamar, e em uma imposição dantesca, não se
permite ou é proibida a escolha pela arte, no que alguns consideram
sua arte, sua música preferida. E em um pesadelo traçado no paralelo imaginário
e proporcional, algo assim como fez tempos atrás aquele austríaco de feições
tão assustadora quanto engraçada e que hoje sorri no inferno, ele
só gostava de uma cor. Talvez o que promovemos não agrade a tantos:
tocamos música barulhenta e em uma língua que não se entende, adequamos uma
geladeira velha onde disponibilizamos livros e revistas que você pode
apenas folhear, ler ali mesmo, levar pra onde quiser, e se gostar, nem precisa
devolver, também poderá fazer doações, emporcalhamos as paredes com
cartazes de filmes clássicos, fotos de personalidades históricas, posters e banners de
bandas de rock de todos os estilos e tempos, frases filosóficas, poesias e
textos autorais e ainda pisamos na sordidez humana da história com gosto, em
atitudes estranhas, guardamos os lacres de alumínio das cervejas que
bebemos à exaustão para doar às instituições e as latas vazias,
entregamos aos catadores para juntar um dinheirinho, às vezes fazemos
eventos para arrecadar alimentos para repassar aos responsáveis pelos animais
abandonados por governantes cegos, surdos, mudos e alheios e por esses cidadãos
que frequentemente vão aos templos rezar com aquela devoção tão emocionada e
verdadeira quanto um duende, e de quebra, malham nosso reduto só pra não
perder o costume. Somos trabalhadores, todos nós, a maioria na área da
educação e frequentamos o lugar por ser a única opção e pura distração e
diversão, gostamos de arte, falamos sobre ela, argumentamos nos temas mais
diversos, não somos partidários, abrimos discussões acerca de vários assuntos,
ouvimos a nossa música preferida sem nenhum preconceito ou crítica, somos
democráticos e respeitamos as ideias e opiniões de quem quer que seja.
Recebemos qualquer pessoa em nosso espaço com o devido respeito e não falamos
da vida alheia nunca, não nos interessa. Mas, eis que aos olhos da sociedade,
dessa sociedade, somos feios, sujos, malvados, drogados, beberrões e etc....
Ora, se somos assim, vocês são o quê? Vocês fazem o quê?
Um aviso
aos navegantes: intolerância não é arte, a não ser quando remete a D.
W. Griffith.
Quer saber,
tô meio cheio dessa merda, acho que vou pegar meu boné.
Nenhum comentário:
Postar um comentário