sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

ESQUINA DA DISCÓRDIA


 

Ficamos um tanto quietos, quase calados e por metáfora, mas não cabisbaixos, amordaçaram nossa esquina sonora, mas daquela vez apertaram tanto o nó que foi difícil, quase impossível desatar. Assim sendo, tivemos uma porção de gente feliz com aquela expressão aparvalhada se sentindo aliviada e com a sensação de dever cumprido.  Parece mesmo que a felicidade, o prazer e a alegria do outro incomoda demais e na atitude grotesca e inescrupulosa a coisa é feita e acatada pela maioria que se diz ou que se acha dona da situação e senhora da razão. Nossa (vossa) cidade tolera apenas um ou dois tipos (ritmos) de manifestação musical, não sei se bom ou ruim, eu, particularmente, acho um lixo, mas muitos consideram um luxo, sabe-se lá, é o lugar onde você é condenado a ouvir esse estrondo medonho madrugada adentro até não aguentar, mas tem que aguentar, já que não tem a quem reclamar, e em uma imposição dantesca, não se permite ou é proibida a escolha pela arte, no que alguns consideram sua arte, sua música preferida. E em um pesadelo traçado no paralelo imaginário e proporcional, algo assim como fez tempos atrás aquele austríaco de feições tão assustadora quanto engraçada e que hoje sorri no inferno, ele só gostava de uma cor. Talvez o que promovemos não agrade a tantos: tocamos música barulhenta e em uma língua que não se entende, adequamos uma geladeira velha onde disponibilizamos livros e revistas que você pode apenas folhear, ler ali mesmo, levar pra onde quiser, e se gostar, nem precisa devolver, também poderá fazer doações, emporcalhamos as paredes com cartazes de filmes clássicos, fotos de personalidades históricas, posters e banners de bandas de rock de todos os estilos e tempos, frases filosóficas, poesias e textos autorais e ainda pisamos na sordidez humana da história com gosto, em atitudes estranhas, guardamos os lacres de alumínio das cervejas que bebemos à exaustão para doar às instituições e as latas vazias, entregamos aos catadores para juntar um dinheirinho, às vezes fazemos eventos para arrecadar alimentos para repassar aos responsáveis pelos animais abandonados por governantes cegos, surdos, mudos e alheios e por esses cidadãos que frequentemente vão aos templos rezar com aquela devoção tão emocionada e verdadeira quanto um duende, e de quebra, malham nosso reduto só pra não perder o costume. Somos trabalhadores, todos nós, a maioria na área da educação e frequentamos o lugar por ser a única opção e pura distração e diversão, gostamos de arte, falamos sobre ela, argumentamos nos temas mais diversos, não somos partidários, abrimos discussões acerca de vários assuntos, ouvimos a nossa música preferida sem nenhum preconceito ou crítica, somos democráticos e respeitamos as ideias e opiniões de quem quer que seja. Recebemos qualquer pessoa em nosso espaço com o devido respeito e não falamos da vida alheia nunca, não nos interessa. Mas, eis que aos olhos da sociedade, dessa sociedade, somos feios, sujos, malvados, drogados, beberrões e etc.... Ora, se somos assim, vocês são o quê? Vocês fazem o quê?

Um aviso aos navegantes: intolerância não é arte, a não ser quando remete a D. W. Griffith.  

Quer saber, tô meio cheio dessa merda, acho que vou pegar meu boné.

 

 

Taquaritinga (Esquina do Rock), 2018

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