sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

EQUUS PHILOSOPHANTES

 




Na acrópole, à tardinha: 

- Incitatus: Ei Rocinante, seu pangaré estropiado e ridículo, eu e o Bucéfalo aqui levamos uma imensa vantagem sobre você. Hua! Hua!! Hua!!

- Rocinante: E que vantagem é essa, oh grande gênio relinchante!?

- Incitatus: Fácil, saímos dos livros de história e você de um livro velho de ficção, o que significa que devemos ter existido e você não passa de uma invenção, no máximo um enredo para um filme ordinário e nada mais. E pra piorar, eu, segundo o Suetônio, tenho sangue nobre.

- Bucéfalo: Puta merda! É verdade, nosso amigo equino aí é só uma criação tosca do tal Miguel, aquele espanhol alucinado e maluco de Cervantes. E eu hein, o maior guerreiro dos reinos das Macedônias enquanto você um ser insignificante, fraco e desengonçado.

- Rocinante: Qual nada, na lógica do Arthur, isso não tem lógica, vocês são dois idiotas, idiotés’, na ótica do Aristóteles.

- Incitatus: É mesmo? Então veja só isso: pro René, se pensar é existir, logo você não existe nem pensa e nós dois existimos por que pensamos que existimos e você não pensa nem existe. Pense nisso e veja se cresce para aparecer e existir.

- Rocinante: Eu existo sim e penso também e na pior das hipóteses o Celso disse que somos todos uns canalhas e que devemos vender pamonha, então, somos todos iguais. Ou não?

- Bucéfalo: Sendo assim se os tempos sempre foram líquidos e estamos aqui só na imagem, só na imaginação, então ninguém existe realmente, somos hologramas bizarros em constante derretimento. Perguntem lá pro Zyg.

- Incitatus: Não acredito nisso, no idealismo acadêmico de Platão, somos mais sensíveis, podemos assim usar nossos corpos. E você, como faria isso?

- Bucéfalo: Bem assim, seu parvo: no contexto da fidelidade, da liberdade e do existencialismo do Jean-Paul eu consigo manipular tanto meu corpo como minha mente e minha alma. E, quer saber, o inferno são vocês, não os outros. Se equilibra nessa aí?

- Rocinante: Mas assim vocês estão contrariando o Públio, o fim, nesse caso, não justifica nenhum meio. Estão dando voltas em círculos e voltando ao início, isso não faz nenhum sentido, no resumo, não tem início, nem fim, e muito menos meio. O parafuso da mente dando voltas em torno de vocês na perspectiva do Henry.

- Incitatus: Não é assim Rocinante, deixa de ser besta, temos que acreditar nas escolas, tanto de Platão quanto a peripatética do Aristóteles. Está tudo ali.

- Bucéfalo: Como vocês são inúteis, o sofrimento suportável do Friedrich nos cai com uma luva e por isso podemos sobreviver a qualquer coisa nessa revelação de todo o oculto absoluto.

- Rocinante: Sim, mas o professor e não o jogador Sócrates disse que a ética é tudo e vocês não têm nada de ético, são dois convencidos, estão usando a sua ironia pedagógica pra tentar se sair bem, assim vão se meter em apuros.

- Incitatus: O Immanuel, em sua racionalidade empírica deixaria que a dedução fosse mais intuitiva e assim poderíamos conversar mais amigavelmente na certeza da moralidade e não em dúvidas. Que acham disso?

- Rocinante: Não sei não, é que baseado em Aristóteles acho que eu, metafisicamente, sou um ser como se fosse mesmo um ser, enquanto isso vou concluindo então que posso sim ser um ser numa sinuca onde ou é o ser ou é o nada? Tá tudo misturado. Melhor deixar pro Jean-Paul resolver isso.

- Bucéfalo: Era só o que faltava. Agora vai dizer, com certeza, que domina o autoconhecimento socrático.

- Rocinante: Vocês precisam cair na real, naquela realidade do Georg, assim tudo fica mais fácil de ser explicado.

- Bucéfalo: Vixe! Só que o Leandro acha que esses ataques envenenam a alma, e só vai funcionar se ingerido em pequenas doses, mas tem que beber.

- Incitatus: Na vida, em particular nas nossas vidas tão medíocres, o Mário diz que devemos enraizar e não nos apoiar em âncoras.

- Rocinante: Vamos usar os perdões que, segundo o Luiz, é muito maior que qualquer justiça. Podíamos ficar aqui pra sempre contemplando essa maravilha, afinal tudo que precisamos é da felicidade que, segundo o Epícuro, nada mais é que a ausência da dor. Que acham?

- Bucéfalo: Acorda Rocinante, vamos seguir a filosofia da Chaui, devemos usar a cabeça, vamos pensar para não emburrecer e morrer na inércia ou na burocracia.

- Incitatus: É, mas todos devemos ser bons e não cair na tentação da corrupção da sociedade, como sugere o Jean-Jacques.

- Rocinante: o Agostinho nos deu a liberdade, o tempo e toda a eternidade para que assim pudéssemos confabular até a morte.

- Bucéfalo: Tá bom, mas essa conversa mole me deixou com uma fome do tamanho do Partenon e pelo que sei, pra podermos adquirir nossos alimentos, teremos que acreditar no Karl, socialismo como desenvolvimento humano e coisas assim.

- Incitatus: Mas espera um pouco, vocês dois devem admitir mesmo que nem humanos somos, então melhor pararmos por aqui, hein seus cavalos.

- Rocinante: Também concordo, pois o Anselmo concluiu que nós, apesar de sermos três cavalos cretinos, nessa breve conversa nós nos saímos muito bem.

- Os três em coro (para acabar): ipse se nihil scire id unum sciat (ν οδα τι οδν οδα). 


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