Na acrópole, à tardinha:
- Incitatus: Ei Rocinante, seu
pangaré estropiado e ridículo, eu e o Bucéfalo aqui levamos uma imensa
vantagem sobre você. Hua! Hua!! Hua!!
- Rocinante: E que
vantagem é essa, oh grande gênio relinchante!?
- Incitatus: Fácil, saímos dos livros
de história e você de um livro velho de ficção, o que significa que
devemos ter existido e você não passa de uma invenção, no máximo um
enredo para um filme ordinário e nada mais. E pra piorar, eu, segundo o
Suetônio, tenho sangue nobre.
- Bucéfalo: Puta
merda! É verdade, nosso amigo equino aí é só uma
criação tosca do tal Miguel, aquele espanhol alucinado e maluco de Cervantes. E
eu hein, o maior guerreiro dos reinos das Macedônias enquanto você um ser
insignificante, fraco e desengonçado.
- Rocinante: Qual nada, na lógica
do Arthur, isso não tem lógica, vocês são dois idiotas, idiotés’, na
ótica do Aristóteles.
- Incitatus: É mesmo? Então
veja só isso: pro René, se pensar é existir, logo você não
existe nem pensa e nós dois existimos por que pensamos que existimos e
você não pensa nem existe. Pense nisso e veja se cresce para aparecer e
existir.
- Rocinante: Eu existo sim e penso
também e na pior das hipóteses o Celso disse que somos todos uns canalhas e que
devemos vender pamonha, então, somos todos iguais. Ou não?
- Bucéfalo: Sendo assim se os tempos
sempre foram líquidos e estamos aqui só na imagem, só na imaginação,
então ninguém existe realmente, somos hologramas bizarros em constante derretimento. Perguntem
lá pro Zyg.
- Incitatus: Não acredito nisso, no
idealismo acadêmico de Platão, somos mais sensíveis, podemos assim usar nossos
corpos. E você, como faria isso?
- Bucéfalo: Bem assim, seu parvo: no
contexto da fidelidade, da liberdade e do existencialismo do Jean-Paul eu
consigo manipular tanto meu corpo como minha mente e minha alma. E, quer saber,
o inferno são vocês, não os outros. Se equilibra nessa aí?
- Rocinante: Mas assim vocês estão
contrariando o Públio, o fim, nesse caso, não justifica nenhum meio. Estão
dando voltas em círculos e voltando ao início, isso não faz nenhum sentido, no
resumo, não tem início, nem fim, e muito menos meio. O parafuso da mente dando
voltas em torno de vocês na perspectiva do Henry.
- Incitatus: Não é assim
Rocinante, deixa de ser besta, temos que acreditar nas escolas, tanto de Platão
quanto a peripatética do Aristóteles. Está tudo ali.
- Bucéfalo: Como vocês são inúteis, o
sofrimento suportável do Friedrich nos cai com uma luva e por isso podemos
sobreviver a qualquer coisa nessa revelação de todo o oculto absoluto.
- Rocinante: Sim, mas o professor e não
o jogador Sócrates disse que a ética é tudo e vocês não têm nada
de ético, são dois convencidos, estão usando a sua ironia pedagógica pra
tentar se sair bem, assim vão se meter em apuros.
- Incitatus: O Immanuel, em sua
racionalidade empírica deixaria que a dedução fosse mais intuitiva e assim
poderíamos conversar mais amigavelmente na certeza da moralidade e não em
dúvidas. Que acham disso?
- Rocinante: Não sei
não, é que baseado em Aristóteles acho que eu, metafisicamente, sou
um ser como se fosse mesmo um ser, enquanto isso vou concluindo então que posso
sim ser um ser numa sinuca onde ou é o ser ou é o nada?
Tá tudo misturado. Melhor deixar pro Jean-Paul resolver isso.
- Bucéfalo: Era só o que faltava.
Agora vai dizer, com certeza, que domina o autoconhecimento socrático.
- Rocinante: Vocês precisam cair na
real, naquela realidade do Georg, assim tudo fica mais fácil de ser explicado.
- Bucéfalo: Vixe! Só que o Leandro
acha que esses ataques envenenam a alma, e só vai funcionar se ingerido em
pequenas doses, mas tem que beber.
- Incitatus: Na vida, em particular nas
nossas vidas tão medíocres, o Mário diz que devemos enraizar e não nos apoiar
em âncoras.
- Rocinante: Vamos usar os perdões que,
segundo o Luiz, é muito maior que qualquer justiça. Podíamos ficar
aqui pra sempre contemplando essa maravilha, afinal tudo que
precisamos é da felicidade que, segundo o Epícuro, nada mais é que
a ausência da dor. Que acham?
- Bucéfalo: Acorda Rocinante, vamos
seguir a filosofia da Chaui, devemos usar a cabeça, vamos pensar para não
emburrecer e morrer na inércia ou na burocracia.
- Incitatus: É, mas todos devemos
ser bons e não cair na tentação da corrupção da sociedade, como sugere o
Jean-Jacques.
- Rocinante: o Agostinho nos deu a
liberdade, o tempo e toda a eternidade para que assim pudéssemos confabular
até a morte.
- Bucéfalo: Tá bom, mas essa
conversa mole me deixou com uma fome do tamanho do Partenon e pelo que sei, pra
podermos adquirir nossos alimentos, teremos que acreditar no Karl, socialismo
como desenvolvimento humano e coisas assim.
- Incitatus: Mas espera um pouco, vocês
dois devem admitir mesmo que nem humanos somos, então melhor pararmos por aqui,
hein seus cavalos.
- Rocinante: Também concordo, pois o
Anselmo concluiu que nós, apesar de sermos três cavalos cretinos, nessa breve
conversa nós nos saímos muito bem.
- Os três em coro (para acabar): ipse se nihil scire id unum
sciat (Ἓν οἶδα ὅτι οὐδὲν οἶδα).

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