quinta-feira, 7 de maio de 2026

BRASIL NA UTI, CIDADES DOENTES

 

Senhoras e senhores, meninas e meninos, antes de abrirem suas bocarras e seus leques de ofensas, já aviso que para tudo nessa vida existem as exceções, portanto, nada aqui é generalizado. Se achar que está sendo massacrado e sentir que está doendo, só relaxa. Ou pare de ler.

Nosso Brasil não nasceu doente, mas assim ficou e assim está, respira por aparelhos, está na UTI, e fomos nós que fizemos isso. Somos algozes da nossa própria pátria. Meu irmão, cuidado! Agora mesmo tem uma turminha disposta a entregar de vez nossos verdes mares e nossas sublimes florestas aos aventureiros em uma bandeja de prata. 'Eles' estão lançando mão das nossas belezas. E aquela 'outra' turminha na conivência dessa vergonha.

Nesse caos implantado, as cidades padecem, especialmente aquelas cuja população se estagnou, onde a mediocridade fechou uma espécie de acordo indeterminado e eterno, as pessoas parecem não querer evoluir, não acompanham a modernidade. Apenas bailam em eventos de fumaça. Nessas cidades não existem o ‘Plano Diretor’ e se existem, estão mofando nas gavetas.

Aqui, irei discorrer sobre uma dessas cidades, um lugar qualquer, uma cidadezinha na mais desdenhosa referência, aleatoriamente descrita e que poderá ficar sob o luar escuro, o sol ardente e entre o mar,  a montanha e o deserto. Como ocorre na maioria das cidades do nosso rico, diluído e dissoluto Estado de São Paulo, nesse lugar o cabo de guerra  pende soberano para o lado ‘direito’.  Ali, naquela vila, a população é, na sua maioria, conservadora, de classe média baixa, aparentam ter posses, são seres soberbos, esnobes, não suportam ‘forasteiros’. Geralmente, nesses lugares, não contam com muitos ‘heróis’, tudo remete a um par de famílias, as homenagens póstumas que dão nomes às ruas, praças, prédios públicos e demais espaços não mudam muito. O comércio é pífio, sem variedades nem novidades, obrigando as pessoas a procurar outros centros nas proximidades, e, para piorar, os atendimentos são apáticos, de uma falta de educação e má vontade atrozes. O mesmo acontece com o serviço de saúde pública, - só para citar uma situação, temos nesses lugares muitos servidores públicos estaduais, e lá não é diferente, que dependem de convênios médicos, mas praticamente nenhum médico atende por esses convênios e a Santa Casa local, único hospital da cidade, longe disso, está fora de cogitação, parece ser intransponível para essa classe de pessoas. Essa situação calamitosa obriga uma parcela considerável da população a se tratar nas vizinhanças, colocando aquelas entidades em sérios riscos de um colapso na saúde. Vê-se com frequência veículos de prefeituras estacionados nas proximidades de hospitais de cidades onde oferecem atendimentos dignos. Uma vergonha indescritível para os administradores alheios às necessidades de seus cidadãos (lembram daquelas promessas lá na campanha?).Então, esqueçam!

O trânsito, como na maioria das cidades brasileiras, é o horror, esse vilarejo não poderia ficar de fora, seus motoristas parecem viver flutuando em cima de um plasma, estacionam errado ocupando várias vagas, na contramão e sobre as faixas de pedestres, as setas de seus veículos são meros acessórios, não respeitam os semáforos, nem os pedestres, mesmo que nas faixas, e aceleram perigosamente e sem necessidade uma vez que em rodovias trafegam como tartarugas atrapalhando o fluxo. Uma lástima. 

A cultura por ali vive sucateada, nem mesmo eventos gratuitos se vê grande número de pessoas. Os bares, estes sim, sempre lotados, mas raramente alternam suas atrações musicais, fixando apenas em um estilo musical único, aquele tal pavoroso sertanejo universitário. Nada contra, cada um com sua loucura ou sua insanidade. Tempos atrás, foi criado um espaço na tentativa de oferecer a um público voltado a outros estilos musicais, conversas sobre literatura, cinema, teatro e demais eventos culturais. Claro, não foi pra frente devido à resistência da comunidade. Mentes econômicas, restritas e engessadas, não querem saber de outras diversões que não sejam as suas. 

Pertencem a uma vertente política ultrapassada, não abrem mão disso, e nessa marra, só acreditam em si mesmos, o que é ‘diferente’ ou não compactuam com suas ideias e ideais, são hostilizados, ignorados ou barrados -  como aconteceu com uma pessoa, um cidadão comum, às vésperas da última eleição para presidente da república onde ela foi sumariamente proibida de entrar em uma loja da cidade por estar trajando uma camiseta estampando a foto de quem ela acreditava ser a melhor opção, era só uma coisinha chamada ‘democracia’ que muitos desconhecem ou não sabem o que significa. Aquela atitude asquerosa atropelou escandalosamente os direitos constitucionais de ir e vir e se expressar, caberia facilmente um processo, mas como se tratava de  um senhor bastante esclarecido e sensato, sabiamente deixou pra lá. 

Se sua cidade se parece com essa aí, não fique bravo ou brava, é só um pouquinho de história, umas verdades contemporâneas, não é legal de se ouvir nem fácil de engolir, mas você se acostumará. Quem sabe assim num dia desses comece a perceber que você e também sua cidade podem evoluir e você passe a regar com mais atenção, dedicação e amor a sua grama, daí você nem precisará mais ficar babando por lugares aos quais você visita em suas viagens. 

Ainda não está na hora de desligar os aparelhos.


Altair José

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