Nos idos de 2009 ou 2010, é claro que ninguém sabe com certeza, eu, Altair José, os cretinos Gustavo Miau, Eder Moutin e o quase terráqueo Estevão, fundamos (sem querer) no boteco de uma esquina qualquer a irmandade suprema cretinesca “Os Cretinos”. Naquelas eras o dono do bar era o Bonazzi, um cara bacana que nos permitiu começar nossa viagem quase futurista pelas estradas do rock 'n' roll, das literaturas, as filosofias e as artes todas. As cervejas eram limitadas, chegávamos , eu e o Miau, de Dobrada babando pra tomar umas geladas e eis que no imenso freeser só havia duas ou três cervejas... E assim começou o que chamaríamos 'nosso espaço'. O Bonazzi abandonou o barco no meio do nevoeiro, ficamos órfãos: "E agora?" - desesperamos eu e o Miau. Logo depois assumiu uma tal Mary, vinda Portugal, mas não vingou, muito mimimi pr'aquele lugar que era especial e por isso tinha que ser alguém assim pra conduzí-lo. Nisso surgiu do nada nosso camarada legalzinho, mas um tanto alheio, tudo que precisávamos. Aquele lugar era frequentado pelas mais diversificadas mentes, umas ácidas, outras avoadas, muitas barulhentas, algumas restritas, mas a coisa borbulhava. Ouvíamos nossa música, customizamos o lugar com temas interessantíssimos entre bandas e cantores de rock e coisas de cinema. Tínhamos como guru um velho safado, incontestável, inexorável, inacreditável, incorrigível, maldito, desgraçado, filho da puta que nasceu, viveu e morreu honrando sua liberdade, o cretino máximo Charles Bukowski que na parede estampava o mural só seu com direito a uma vela acesa o tempo todo. Acima da TV dependurado um banner dele mesmo sentado no ‘trono’ com sua inseparável garrafa de cerveja observando toda a nossa aventura cibigibiana. No corredor estreito dos banheiros o piso coberto com a cara de um político desgraçado pra todos pisarem. Isso era demais, muito massa. Nossa sociedade purista é lógico que não tinha bons olhos pro nosso reduto, mas a gente nem ligava e aquilo não nos incomodava nem um pouco, não mesmo, a hipocrisia e muito menos a soberba não tinham espaço por lá, que se danassem, éramos apenas apreciadores das artes, da boa amizade e, claro, da boa música, do bom e velho ROCK ‘N’ ROLL ♫♪♫♪♫♪♫♪
No alto do armário surrado, a parede com marcas eternas de goteiras, instalações elétricas gambiarradas, tapumes de isopor para inibir o som e em meio a pacotes de salgadinhos vencidos e um vidro com salsichas brancas repousava uma lata de cerveja com o escudo do São Paulo que outrora fora vermelho e jazia meio rosado desbotado pelo tempo, motivo pra nossa zoação ao dono, um camarada legalzinho e alheio. Na parede acima do freezer (que nem sempre estava ligado), uma camiseta também do São Paulo, tipo baby-look, que ele jurava ser de sua filha, mas mesmo assim a gente zoava também. ‘Organizamos’ o local, desligamos o Datena e espetamos um pendrive lotado com clipes de rock que nunca conseguimos chegar no final, que pro dono, um camarada legalzinho e alheio, de novo, tanto fazia. O mais engraçado nessa história era o valor das contas, os produtos, todos eles, tinham preços ‘redondos’, mas as contas sempre, todas elas, eram com valores ‘quebrados’ (não tente entender, nós nem ligávamos). Nas noites de sexta e nas tardes de sábado aquilo virava um ponto de encontro da galera sedenta por bons papos, música legal e cervejas mais ou menos geladas e assim reinava o rock and roll, pois só mesmo ali pra tocar esse tipo de música ‘barulhenta’ de rockeiros velhos, barbudos, feios, maltrapilhos, sujos e malvados. Os eventos musicais com bandas contratadas a preços chorados e baixíssimos e a feira de vinil aconteciam esporadicamente, mas o boteco ficava entupido com aquela moçada do bem. Rolava também uma lata recolhendo doações pra custear os lanches para os brothers das bandas que tocavam por pura diversão e amor ao rock ‘n’ roll. Precisávamos batizar o local. Junto com o Gustavo Miau e o também cretino Gustavo Troiano, idealizamos o que chamamos de reduto atemporal, sazonal, astral e contemporâneo da cretinice, e foi fácil achar um nome, era uma esquina que só tocava rock e assim se fez o bar-rock naquela mesma esquina de Taquaritinga, cidadezinha conservadora encravada entre o mar e o deserto pendendo burramente para o lado direito. O dono daquele pequeno e sinistro espaço era aquele mesmo sujeito legalzinho e alheio que fingia não ver nosso ‘estrago’ (talvez não visse mesmo). Sorrateiramente fomos cobrindo o banner do Psol, seu partido político, com colagens, e, claro, mais uma vez o camaradinha alheio não percebeu e começaríamos a fazer o mesmo com a bandeira do São Paulo, seu time do coração, que ele pendurou estrategicamente no meio dos Motörheads, Black Sabbaths, Ramones e dos Pink Floyds, mas não deu tempo. A dica (era melhor seguir) pra quem usaria o banheiro feminino era pra levar uma sombrinha nos dias de chuva e um celular, pois a única garantia era que a porta se fecharia. Nossa mascote, o Bert - um ratinho totalmente cretino, morava na despensa e dividia espaço com a bicicleta elétrica do dono sempre ligada na tomada, uma pilha de latas amassadas e outras bugigangas sem utilidade. O Bert não tomava sol, por isso era quase albino e raramente aparecia, mas acho que gostava de rock. E um visitante ilustre que de vez em quando dava umas bandas pelo ambiente era a barata Franz.
Nosso boteco, lugar estranho que a gente jurava haver um portal, foi aclamado e atestado por gente do ramo como o único no mundo todo. Nesse caso, não poderia durar para sempre. E o dono, o camarada legalzinho e alheio, também não.
Um salve pro nosso parceiro da eternidade Sérgio!

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