quarta-feira, 20 de março de 2024

SÃO PAULO: LADO A, LADO B



Se existe ou não amor em SP eu não sei, mas é um lugar fascinante, é certo que alguma coisa vai acontecer no seu coração assim que cruzar a Ipiranga com a Avenida São João. Quem chegar por lá pela primeira vez poderá não entender muita coisa ou nada mesmo, já que todos os mundos se entrelaçam em um monumental emaranhado de concreto armado e frio. Passeiam na sua garoa toda espécie de seres, gente séria, artistas de rua brincalhões, algumas pessoas impecavelmente bem vestidas, outras na androginia, uns tantos estranhamente estilizados com roupas extravagantes e pretas com correntes, pierces, alargadores e penteados muito estranhos ou tatuagens cobrindo todos os espaços do corpo (todos mesmo), mulheres lindas como em um desfile de modas e homens elegantes passando apressadamente parecendo estar sempre atrasados, são os empresários e as executivas com pensamentos imersos apenas nos negócios, e o estranho é que todos passam despercebidos, ninguém liga, ninguém mesmo, não há olhares de reprovação muito menos de admiração. Em SP, não existe nada que você não possa encontrar, desde a cerveja egípcia de 3 mil anos Tutankhamun Ale, o parafuso da hélice de um avião da Primeira Guerra ao pastel de caviar do Mar Cáspio do Irã com azeitona preta Olive Taggiasche da Ligúria na Itália. Prédios suntuosos e magníficos em estilos arquitetônicos das mais variadas escolas par a par com a decadência de repartições públicas ou não abandonadas à sorte do tempo, assim como as mansões dos Jardins fazendo fundos com as comunidades de favelas sem pudor algum. São escancarados os contrastes de uma surrealidade inacreditável. As pichações lá no alto do 50º andar nos causam vertigens, são os homens-aranha das madrugadas no alpinismo suicida urbano, mas têm também os maravilhosos grafites do senhor Kobra que são um arraso colorindo a cidade cinza. Nas muitas galerias o corre-corre é o mesmo, na do Rock, onde a diversidade fica ainda mais gritante, minhas visitas se tornaram obrigatórias desde os idos de 1984 nas românticas viagens de trem na garimpagem de LPs. Mas deixa isso, é puro saudosismo:

São, São Paulo
Quanta dor
São, São Paulo
Meu amor

Os carros e ônibus voam nos asfaltos ora ardendo ora inundados, enquanto isso os trens do metrô seguem esguiamente em velocidade estonteante como uma cobra nos subterrâneos deixando a cidade por cima sem qualquer cerimônia, sempre entupidos com pessoas na sua mais completa solidão. O Tom Zé transformou três vias da cidade em mulheres: Augusta, Angélica e Consolação, mas quem já ousou passear por seus encantos há de concordar, são belas mulheres na sua mais perfeita tradução. Há os milhares de andarilhos e viciados desimportantes, são os invisíveis ou fantasmas da sociedade que destoam as paisagens nas óticas dos senhores de termos escondidos nos ares-condicionados, os desassistidos mortos-vivos que atrapalham e assediam os ditos cidadãos de bem. Ninguém olha por eles, jamais olhou (a não ser com desdém e coisas assim). São Paulo é uma metrópole, uma das maiores do mundo, há ali sim a inevitável globalização, uma diversidade gigantesca de nações, mas a impressão que se tem andando por suas ruas é de que aspira por ser como Nova Iorque (não precisa), suas lojas e outros estabelecimentos, vários dos seus eventos culturais entre muitas coisas são grafados em inglês, procurei um lembrancinha com “Eu Amo SP”, mas só encontrei “I Love SP”, claro que não comprei. Triste cenário, isso explicita o estrangeirismo boçal que nos assola. O paulistaníssimo Oswald de Andrade ficaria muito chateado vendo seu Movimento Pau-Brasil sendo ignorado. Mas isso não tira a magia nem a beleza da cidade. Você poderá enxergar na megalópole o verdadeiro túmulo do samba ou até quem sabe um Quilombo para seus Zumbis.

No amor incondicional por São Paulo, que Mário de Andrade apelidou de Pauliceia Desvairada, poetizou que:

“Quando eu morrer quero ficar
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.”

E assim a cidade segue, pois ela sabe que não poderá parar, não lhe será permitido dormir, nunca.

Cai a noite paulistana no gigantismo de seus horizontes longínquos onde o feio se mistura com o bonito e a noite se faz uma só e todos podem curtir numa muito boa.


Altair José

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