: não sabemos escrever nem falar, não entendemos nada de gramática e muito menos concordância - e também não queremos aprender -, amaldiçoamos as matemáticas, as geografias, as químicas. Falamos errado demais ou falamos muito alto, berramos palavrões nas ruas, não sabemos andar, nem nadar, não comemos direito, cuspimos na rua, urinamos nos cantos e becos e nas sarjetas. Xingamos o padre, o pobre, o preto de preto e a donzela de puta, arrancamos a cabeça do homossexual por não concordarmos com suas preferências, queimamos os indigentes para não nos atrapalhar, derretemos os viciados e mendigos por estragarem a paisagem. Não respeitamos nossos pais, nossas tias, nossos avós, nossos irmãos, nossos professores, nossos governantes, nossa cidade, nossa rua, nosso bairro, não respeitamos o trânsito, as leis de trânsito, os limites de velocidades, os semáforos, os pedestres, não respeitamos nada nem ninguém, fomos mal educados e somos mal-educados. Colocamos nossos lindos cãezinhos nos portões para latirem o dia todo e também a noite toda - 'Mas, e os nossos vizinhos que nem sequer conhecemos?' - 'Paciência, fazer o quê?' Jogamos lixo na rua, nas calçadas, nos rios e nas estradas para depois reclamarmos da sujeira. Furamos filas nos achando assim o máximo, afinal, nós, brasileiros, gostamos de levar vantagem em tudo. Né não, seu Gerson? Buzinamos com força total em frente escolas e hospitais, estacionamos nossos veículos ocupando duas vagas ou na contramão, paramos em cima das faixas de pedestres, estacionamos em vagas especiais, em frente às farmácias, em cima das calçadas e obstruímos as rampas para as pessoas com necessidades especiais, viramos também na contramão - as placas de sinalização estão ali, mas as ignoramos, são as tais 'imagens meramente ilustrativas' -, dirigimos em alta velocidade, tanto faz nas estradas ou nas cidades, dirigimos alcoolizados atropelando e matando pessoas nas ruas, nas calçadas e onde mais vier ou convier, sendo que uma irrisória fiança nos livrará da punição verdadeira. Reparem que aguardamos a passagem dos veículos, mas nunca aguardamos a passagem dos pedestres, isso é reflexo da aversão que temos por ‘escolas’, sejam elas quais forem, inclusive as ‘autoescolas’, o nome para isso é cataclismo cerebral. “Nossos” bandidos roubam e furtam Postos de Saúde e Escolas, as creches e os berçários com todo o ódio que eles têm no coração, se é que eles os têm. Em desfiles cívicos ficamos passeando no meio das apresentações corujando nossos filhinhos tirando fotos e empunhado latas de cerveja em uma atitude desprezível, vil e incivil, somos os antipatriotas, nem sabemos o significado dessas datas cívicas, apenas que será um feriadão prolongado. Zoamos com nossos carros com o som no talo, geralmente com músicas pavorosamente horrendas como se os outros também partilhassem do nosso gosto musical mais que duvidoso. O verde nos incomoda, por isso arrancamos as árvores nas cidades e queimamos nossas florestas, e as águas límpidas dos rios e riachos as transformamos em lamaçais sem vida. Em um passado recente, em meio a uma pandemia avassaladoramente mortal, tivemos a capacidade de escolhermos qual vacina iríamos tomar, somos o que se pode chamar de ‘sommeliers da idiotice’, e nessa barbárie toda muitos não se vacinaram seguindo conselhos de autoridades descompromissadas e irresponsáveis. Recheamos os cofres das influenciadoras e dos influenciadores digitais para ouvirmos e assistirmos as mais perfeitas idiotices via Youtube deixando a impressão que nossa capacitade cerebral foi reduzida a um grão de arroz. Por não termos votado no presidente ou simplesmente por não gostarmos dele, seja ele quem for, o amaldiçoamos e malhamos, torcemos contra e não aprovamos nada que ele faça, nada mesmo, ainda que esteja fazendo uma boa administração. Yes! Louvamos as festas gringas e ignoramos as nossas, viva o Halloween! Mas viva também o Saci-pererê, a Cuca, o Curupira e a Mula sem cabeça, o Negrinho do pastoreio e a Caipora!
E como se fosse uma roda gigante destrambelhada nos deparamos com essa manada vagando por todos os cantos do mundo e, principalmente por nossas terras brasileiras, acontece de termos a insensatez de não sabermos como discernir entre o real e o imaginário e chegarmos ao ponto de nos considerarmos o que se conhece como a ‘joia da coroa’ ou a ‘cereja do bolo’, estamos sempre nos vangloriando, mas é o avesso do avesso do avesso, pois estamos muito aquém das realidades, viajamos num paralelo ilusório, uma realidade virtual paradoxal baseada em redes sociais onde são despejados montes de entulhos e lixos que digerimos tudo como se fosse uma iguaria deliciosa. Somos manipulados por TVs com programações horripilantes em um masoquismo cognitivo sem igual. Muitos de nós jamais leu um livro sequer, nosso conhecimento é parco e limitado e parecemos estar muito bem assim, mas quem pode ou consegue, leia para não ser enganado, afinal, pensar é para poucos, alguns. Somos tão imbecis politicamente que resolvemos particionar o país em duas vertentes, como se isso fosse alguma vantagem na crença de que o tiro no pé será alvejado apenas em um dos duelistas. Acreditamos em promessas as mais absurdas e preceitos ainda piores baseados em mentiras com blasfêmias do calão de que os comunistas estão soltos por aqui e vão comer as criancinhas. Protejam-nas de ambos. Para qualquer definição de quem realmente somos, haverá sempre os caminhos cruzados e as bifurcações.
Talvez esse ranço intelectual todo seja reflexo e a confirmação daquela história de que os filhos nascidos antes da década de 1980 tinham uma inteligência mais apurada que a de seus pais e após esse período a coisa virou de ponta cabeça, como se fosse uma curva na descendência, assim, essa nova geração está cada vez mais emburrecida, mesmo quando há um contraste abismal de informações entre as duas eras em uma tremenda inversão proporcional. Se esse processo for realmente verdadeiro, em breve teremos uma geração de idiotas.
Altair José
Dobrada, 2023

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