sábado, 3 de fevereiro de 2024

FLOR DO LÁCIO DESPEDAÇADA






 

Entre devaneios, bicos de penas e paradoxos do poeta patriota cívico nacionalista Olavo Bilac que usou Camões para gritar desesperadamente que não sepultássemos a Última flor do Lácio, inculta e bela, tal qual um autêntico 'bem me quer, mal me quer, mas que de nada adiantou, vez que para nós compatriotas que temos cérebros cascudos e engessados o apelo foi em vão, somos surdos e burros, não entendemos a metáfora ou qualquer outra figura, não compreendemos quase nada das linguagens praticadas Brasil afora, sendo assim, fica mais fácil e cômodo roubarmos idiomas mais simplórios para não errarmos feio, pois aquele que não sabe ler correrá sempre o risco de ser enganado e quem não consegue usar as palavras com rigor, não sabe pensar. O senhor Rei da Vela e uma das cabeças pensantes da Semana de Arte Moderna de 2022, Oswald de Andrade, ficaria muito chateado vendo seu Movimento Pau-Brasil sendo ignorado com a internacionalização do Brasil na digestão de culturas estrangeiras. E assim assumimos de vez o complexo de vira-lata cunhado pelo genial dramaturgo Nelson Rodrigues, aquele mesmo que via o amor pelo buraco da fechadura.
Na data de 05 de maio comemoramos, ou deveríamos comemorar, o "Dia mundial da língua portuguesa", mas ninguém lembra, ninguém sabe, ninguém liga, ninguém viu, ninguém comemora. Duvido que você soubesse, se sabia, tanto faz, tanto fez, e se não sabia, ficou sabendo, mas já esqueceu.
* O 'Dia Internacional da Língua Portuguesa' é comemorado em 5 de maio. A data foi instituída em 2009, no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com o propósito de promover o sentido de comunidade e de pluralismo dos falantes do português, a saber: Brasil, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe; abrange ainda as variedades faladas por parte da população de Goa, Damão e Macau na Ásia e também a variedade do Timor na Oceania. A comemoração propicia também a discussão de questões idiomáticas e culturais da lusofonia (conjunto de países que têm o português como língua oficial ou dominante), promovendo a integração entre os povos desses países.
Pobre nossa língua tão inculta quanto bela, agora é assim:
“O patrão mandou cantar com a língua enrolada.
Everybody macacada. Everybody macacada”.
Não sejamos assim tão hipócritas, é óbvio que o idioma inglês é importantíssimo e é bem-vindo entre nós, é o idioma mais falado no mundo, inclusive é a segunda língua de muitos povos, estudamos o inglês que faz parte desde sempre da grade curricular das escolas, inclusive a disciplina foi recentemente incluída na grade do ensino fundamental até o 5º ano, o estudamos para aprimorarmos nossos conhecimentos, várias palavras inglesas já foram ‘abrasileiradas’ para facilitar nossas vidas. Com isso todos concordamos. Agora vamos dar umas voltas aqui pelo nosso Brasil, que não é o Brazil, onde todos também concordamos que temos nosso próprio idioma e sabemos que está a anos-luz do idioma inglês em termos de complexidade com uma gramática bastante complexa e abrangente: existem dez classes gramaticais ou morfológicas, são elas: substantivo, artigo, adjetivo, pronome, numeral, verbo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição; sendo vários pronomes (pronomes pessoais, possessivos, demonstrativos, interrogativos, relativos e indefinidos) e também muitos verbos (verbos regulares, irregulares, anômalos, defectivos, impessoais, unipessoais, abundantes, de ligação, auxiliares, pronominais, reflexivos, transitivos e intransitivos) e milhares de nuances desse idioma mágico. Contamos ainda com diferentes dialetos nas tantas regiões do Brasil deixando a impressão de que são vários brasis dentro de um só país. Encontramos uma escrita peculiar jamais vista na literatura universal ‘nas obras dos escritores Guimarães Rosa e Mário de Andrade, só para ficar nesses dois exemplos. Nas escolas a matéria ‘Língua Portuguesa’ é ensinada arduamente para que aprimoremos suas várias ‘armadilhas e artimanhas’, poucos conseguem assimilar com exatidão toda a magnitude que essa língua extraordinária abrange e que já é na verdade o ‘português brasileiro’ uma vez que difere muito da língua falada em Portugal quando várias palavras precisam ser traduzidas, é o Português brasileiro ou português do Brasil, abreviado como ‘pt-BR’ é o termo utilizado para classificar a variedade da língua portuguesa falada pelos milhões de brasileiros que vivem dentro e fora do Brasil, é uma variante do português que é uma mistura do latim com árabe e várias tribos da região, 14 vezes mais que a variante de uma de suas origens, Portugal, que por sua vez remonta a outra língua, o galego; é o idioma oficial de 9 países, 260 milhões de pessoas (3,7% da população mundial) falam o idioma, sendo a quarta língua materna mais falada no mundo, depois do mandarim, inglês e espanhol, é um idioma difícil, todos sabemos das dificuldades para aprender e é um dos mais versáteis que existem.
Apesar de toda essa magnitude, estamos berradamente estrangeirados. Parece bonito e estético, mas não é não, vivemos hoje, mais do que nunca, um fenômeno inexplicável que está assolando nosso país com uma enxurrada de palavras e termos estrangeiros que alguns preferem classificar como globalização ou empréstimos linguísticos, outros culpam o imperialismo econômico, outros a tecnologia, outros a receptividade do brasileiro, mas a verdade é que não passa de um estrangeirismo ridículo e mais que esnobe, parece que temos vergonha do nosso idioma e o inglês está invadindo nossos restaurantes, a mídia, lugares de compras, na propaganda, eventos culturais, no nome de grifes nacionais, estampas das camisetas dos adultos e das crianças e para piorar com péssimos exemplos o próprio governo usa termos e expressões que fogem da nossa escrita: “hoje teremos uma Live”.
Concordemos, repararem bem, sempre foi assim, mas agora está fora de qualquer propósito o uso desnecessário de tantos termos e palavras em inglês, é certo que existem alguns que são de uso universal como na área da informática e outros já incorporaram na linguagem popular, mas no geral estamos trocando termos perfeitamente cabíveis no nosso idioma por expressões, frases e palavras em inglês e isso soa como colonialismo e falta de nacionalismo, optar por usar os estrangeirismos pode ser considerado um sinal de preguiça, de pedantismo ou de desconsideração pelo idioma nativo e, claro, a maioria dessas pessoas sequer sabe como se escrevem, pronunciam e muito menos o que significam essas palavras. São atitudes sem o menor sentido já que temos termos perfeitamente cabíveis para tais situações e esses fatores podem ameaçar a soberania da língua portuguesa, um patrimônio cultural imaterial do Brasil, bem como empobrecer e dificultar a comunicação.
Não, não sou ufanista nem sofro de ‘síndrome de Policarpo Quaresma’ e muito menos desejo que nosso idioma mude para o tupiniquim ou qualquer outro que o valha, mas sei também que esse texto não servirá para coisa alguma, primeiro porque poucos ou quase ninguém o lerá, parece existir coisas mais ‘substanciais’ nas redes sociais, vide os Stories, TikTok e demais macaquices genéricas, pois eis que temos congestão cerebral e está mais que óbvio a absurdamente gritante disseminação da 'nova língua', estamos assim nos tornando poliglotas do nosso próprio idioma.
Então, meus caros nativos anglicistas xenoglóssicos habitantes da Terra dos Papagaios, semianalfabetos e quase índios, na dúvida e na possibilidade de um vocábulo da Língua Pátria, desrecalque a apropriação indébita, indevida e disparatada fronteiriça ou não e opte sempre pelo óbvio, ou seja, prefira o bom e velho português, o pt-BR.
Faça como o sensacional escritor Ariano Suassuna: não troque seu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém.
Let’s go, man!


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