sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

ALÉM DO BEM E DO MAL


 

Tem Deus e tem o Diabo, um diz a verdade o outro nem tanto, caminham de mãos dadas, assim como o amor e o ódio, apesar de serem antagonistas históricos estão ambos encravados em todos nós, sem exceção, acontece que somos niilistas patológicos e narcisamente apreciamos apenas o que há de bom em nós, mas não devemos nos preocupar, o resto do mundo está nos observando e nos classificando muito mais pelas maldades que cometemos que pelas boas ações e, convenhamos, nós somos muito crápulas, um bocado banais, somos viciados, traficantes, egoístas, bandidos, ladrões, boçais, assassinos, individualistas, sequestramos, torturamos pessoas e animais e por aí se vão, não nos interessa se estão matando negros apenas por serem negros, espancando mulheres só pra mostrar nossa virilidade de macho, queimando índios pelo crime de serem índios, estamos fingindo que isso ou aquilo nos comove, mentira, somos hipócritas e na primeira oportunidade faremos rigorosamente a mesma coisa, é só acontecer a exposição em situações de desconforto. Temos nossos ídolos, apesar de pensarmos diferente, eles são humanos, assim como nós, mas tem uma diferença aí: essas pessoas, pelo menos algumas delas, de certa forma, fazem coisas que mudam o mundo, nos fazem bem, nos fazem pessoas melhores, mudam os rumos da história, comovem multidões, interrompem guerras com sua magia, nos enchem os olhos com atitudes louváveis, com obras magistrais, brotam de suas mentes iluminadas coisas que jamais imaginaríamos, estão sempre improvisando, criando no apogeu, nos surpreendendo e até nos consternamos quando de seu passamento, mas, como disse, são humanos, têm defeitos, vícios, atitudes deploráveis e muitos de nós em nosso (pré)conceito, na crueldade das nossas mentes, em nosso (pré)julgamento, esquecemos rapidamente todas as suas virtudes para que assim nos concentremos apenas no lado sombrio dessas criaturas, tudo que fazem ou fizeram de bom não vai contar, pois para nós só o que interessa são suas qualidades mórbidas, seus vícios sórdidos, suas vaciladas e, sendo assim, na concepção das coisas, destruímos nossos ídolos, crucificando e transformando-os em párias desprezíveis de lata ou papel, sendo que para nós, em nossa brevíssima passagem por aqui, não fizemos nada de extraordinário, quase nada de bom que valesse a pena, que as pessoas nos parassem na rua para nos admirar ou apenas olhar pra nós e querer ser igual, nos imitar, pedir um autógrafo, tirar uma foto junto, somos frustrados e temos rancor e inveja dessas pessoas que conseguiram fazer a diferença, nosso altruísmo está na lado do lixo, sempre esteve.

Se você tem certeza de que seu teto é de vidro, então, pode atirar a primeira pedra se tiver coragem.

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