Tem Deus e
tem o Diabo, um diz a verdade o outro nem tanto, caminham de mãos dadas, assim
como o amor e o ódio, apesar de serem antagonistas históricos estão ambos
encravados em todos nós, sem exceção, acontece que somos niilistas patológicos
e narcisamente apreciamos apenas o que há de bom em nós, mas não devemos nos
preocupar, o resto do mundo está nos observando e nos classificando muito mais
pelas maldades que cometemos que pelas boas ações e, convenhamos, nós somos
muito crápulas, um bocado banais, somos viciados, traficantes, egoístas,
bandidos, ladrões, boçais, assassinos, individualistas, sequestramos,
torturamos pessoas e animais e por aí se vão, não nos interessa se estão
matando negros apenas por serem negros, espancando mulheres só pra mostrar
nossa virilidade de macho, queimando índios pelo crime de serem índios, estamos
fingindo que isso ou aquilo nos comove, mentira, somos hipócritas e na primeira
oportunidade faremos rigorosamente a mesma coisa, é só acontecer a exposição em
situações de desconforto. Temos nossos ídolos, apesar de pensarmos diferente,
eles são humanos, assim como nós, mas tem uma diferença aí: essas pessoas, pelo
menos algumas delas, de certa forma, fazem coisas que mudam o mundo, nos fazem
bem, nos fazem pessoas melhores, mudam os rumos da história, comovem multidões,
interrompem guerras com sua magia, nos enchem os olhos com atitudes louváveis,
com obras magistrais, brotam de suas mentes iluminadas coisas que jamais
imaginaríamos, estão sempre improvisando, criando no apogeu, nos surpreendendo
e até nos consternamos quando de seu passamento, mas, como disse, são humanos,
têm defeitos, vícios, atitudes deploráveis e muitos de nós em nosso
(pré)conceito, na crueldade das nossas mentes, em nosso (pré)julgamento,
esquecemos rapidamente todas as suas virtudes para que assim nos concentremos
apenas no lado sombrio dessas criaturas, tudo que fazem ou fizeram de bom não
vai contar, pois para nós só o que interessa são suas qualidades mórbidas, seus
vícios sórdidos, suas vaciladas e, sendo assim, na concepção das coisas,
destruímos nossos ídolos, crucificando e transformando-os em párias
desprezíveis de lata ou papel, sendo que para nós, em nossa brevíssima passagem
por aqui, não fizemos nada de extraordinário, quase nada de bom que valesse a
pena, que as pessoas nos parassem na rua para nos admirar ou apenas olhar pra
nós e querer ser igual, nos imitar, pedir um autógrafo, tirar uma foto junto,
somos frustrados e temos rancor e inveja dessas pessoas que conseguiram fazer a
diferença, nosso altruísmo está na lado do lixo, sempre esteve.
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